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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

BUDISMO E O ABORTO

De acordo com a tradição, para os budistas a vida dos seres sensíveis começa no momento da concepção, quando a consciência de um ser "entra" na união do óvulo e do espermatozoide dos pais.

Sendo que a vida começa no momento da fecundação, acredita-se que não há diferença qualitativa entre um aborto praticado durante o primeiro trimestre e um aborto tardio. Apesar de o feto não ser considerado possuidor de uma "personalidade completamente desenvolvida" no sentido ocidental da palavra, é reconhecido como uma "pessoa", já que apresenta as cinco características que permitem determinar a identidade pessoal: forma, sentimentos, percepções, formações kármicas e consciência.

Segundo o primeiro dos cinco preceitos budistas (abster-se de matar, tanto insetos quanto seres humanos), o aborto é proibido. Considera-se que a vida começa com o surgimento da consciência, e considera-se que os fetos possuem consciência.

O aborto - que mata o feto - coloca um sério dilema pessoal nos planos moral e espiritual. Nos textos budistas indianos, "matar" é compreendido como matar um ser "sensível", dotado de consciência e, assim, com possibilidades de alcançar a iluminação.

As regras do Buda para sua comunidade de monges proíbem também indicar o aborto. Os textos budistas não preveem direitos legais para o feto. Também não mencionam o aborto em casos de violação, incesto, deformidade grave nem violência mental, física ou emocional.

O 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, manifestou em 1992 uma opinião controversa e pouco ortodoxa:
"Poderiam existir situações nas quais, se sabemos que a criança terá uma incapacidade severa ou que padecerá grandes sofrimentos, o aborto seria admissível. No entanto, em geral, abortar é matar uma vida e isto não é apropriado. O principal fator a se levar em conta é o motivo."

Do ponto de vista budista, tal posição implicaria a faculdade de discernir as vidas passadas e futuras de um ser, o que é uma capacidade pouco comum. A generalização do Dalai Lama é abusiva.

A visão tradicional budista leva em conta a felicidade da criança não nascida e da mulher grávida, não só nesta vida, mas também em todas as futuras reencarnações. Isto supera a capacidade das pessoas comuns.

Buda ensinou uma ética da responsabilidade pessoal, segundo a qual cada pessoa assume a plena responsabilidade dos atos que realiza e de seus resultados. Para determinar se uma ação é boa ou má, a ética budista leva em conta três elementos implicados em uma ação kármica. O primeiro é a intenção que motiva o ato, o segundo é o efeito que experimenta o agente como consequência de seu ato e o terceiro é o efeito que experimentam os demais como resultado desse ato.

Estes preceitos morais budistas são baseados no Dharma (lei natural da vida santa) e expressam valores eternos como compaixão, respeito, temperança, honestidade e sabedoria. Neste sistema, os indivíduos escolhem livremente suas decisões éticas, sabendo que as boas ações levam à felicidade, e as más ao infortúnio - a menos que sejam purificadas por práticas espirituais.

No tocante à contracepção, o budismo não formula objeções, desde que não tenha havido fecundação e, como consequência, que não exista um ser vivo comprometido. Os métodos contraceptivos com efeitos abortivos (como os dispositivos intrauterinos e os hormônios) não integram esta categoria, mas são considerados abortos (GOOGLE, Acesso em 1°/07/15). Há, no entanto, um certo respeito à decisão individual e médica (aborto terapêutico, por estupro, etc.), havendo certas divergências entre as diversas escolas budistas (BIAGI; PEGORARO, 1997, p. 371-378).

ÉTICA NO BUDISMO

No Budismo, os cinco preceitos são aqueles que devem ser mantidos pelos devotos leigos masculinos (upāsakas) e devotos leigos femininos (upāsikās). 

Essa é a virtude dos preceitos para a vida do leigo e são a guia para o comportamento ético:

“Não matar”. Quando a pessoa mesma mata ou manda outro para fazê-lo (conspirar com outros para matar), acabando com a vida de um ser consciente, isto também é matar. Matar a alguém sem intenção não é assim um delito grave. Entre todas as mortes de seres conscientes, matar humanos é naturalmente o crime mais grave. Danificar aos outros – com facas, lanças, peças de cerâmica, pedras, etc. – contudo não é considerado tão grave como o crime de matar, mas também pertence à categoria de matar assim como o suicídio.

“Não roubar”. Isto é aplicado a todas as coisas – nacionais, pessoais ou budistas – que possuem proprietários. Nós quebramos o preceito de não roubar se tomarmos, ocuparmos pela força ou apropriarmos de coisas sem o consentimento do dono. Segundo o Dharma (lei) de Buda, não podemos usar a escusa de estarmos famintos, doentes ou com vontade de manter os nossos pais, mulher e filhos para roubar. Todo roubo é condenado.

“Não se envolver em uma conduta sexual imprópria”. Se um homem e uma mulher convierem em se tornar marido e mulher pelos ritos de reconhecimento público, com a aprovação dos tutores e não violando as leis seculares, então o contato sexual entre marido e mulher (que é um elemento importante da formação familiar para a continuação da posteridade) é próprio e não é condenado. Ainda em casos onde a outra parte o consentir, a conduta sexual é imprópria para os leigos se isso não for permitido pelo Dharma de Buda (por exemplo, quando receber os oito preceitos), não permitido pela lei secular ou não aprovado pelos respectivos tutores. Os devotos leigos budistas devem evitar esse contato. Esse contato não prejudica só a capacidade da outra pessoa para adotar eleições livres de influências externas, mas também é uma conduta ruim que quebra a harmonia das famílias e perturba a ordem da sociedade.

“Não fazer depoimentos falsos”. Algumas vezes fazemos depoimentos não verdadeiros para o nosso próprio benefício, para o benefício dos nossos parentes e amigos ou para danificar ao nosso inimigo. O preceito de não mentir aplica-se ainda a dizer conhecer alguma coisa que não conhecemos e negar que conhecemos alguma coisa quando sim a conhecemos; dizer que tem uma coisa quando isso não for verdade e dizer que não tem uma coisa quando sim a tem; e dizer que uma coisa é certa quando ela não o for e vice-versa. Fazer depoimentos falsos para nos beneficiar e para beneficiar aos nossos parentes, mas produzindo dano aos outros, cometemos o grave crime de mentir. Para outros tipos de depoimentos falsos o crime é mais ligeiro.

Os quatro preceitos acima referidos são chamados de preceitos naturais porque os mesmos atos são crimes. Assim, fazer estas coisas é impróprio sem considerar se nós aceitamos ou não os preceitos. O Dharma de Buda não permite estes atos e também as leis seculares vão nos punir por essa conduta.

“Não beber álcool”. Qualquer substância que tem a capacidade de perturbar ou confundir a nossa mente é chamada de álcool e não devemos consumi-lo nunca. Contudo se algumas pessoas falarem que beber álcool é bom para nossa saúde, segundo o Dharma de Buda, isto não merece qualquer mérito. No primeiro lugar, beber álcool pode perturbar a nossa mente e produzir a perda de nosso autocontrole. Quando estamos bêbados fazemos erros e falamos coisas ou cometemos atos ruins que somos incapazes de fazer de maneira regular.

No Vinaya (livro que ensina a educação e a disciplina na vida monástica)  há uma história relativa a um discípulo budista que era muito restrito ao fato de manter os preceitos, mas quem, depois de se tornar confundido pela bebida, cometeu os quatro crimes graves de matar, roubar, ter uma conduta sexual imprópria e mentir, tudo isto no mesmo dia. Devido a razões como esta, é conhecido que beber pode destruir todas as virtudes. De maneira efetiva, não são só as virtudes do Dharma de Buda as que são destruídas pela ingestão de álcool. A felicidade das famílias, as amizades, os negócios e o patrimônio são muitas vezes destruídos. No segundo lugar, o desarranjo e a ignorância são as raízes de todos os crimes por causa da bebida. Beber com frequência é um grande obstáculo para manter a saúde mental e o conhecimento certo.

Algumas pessoas, devido a que sempre estarem bêbadas, têm filhos que nascem insanos ou com séria retardação mental. Contudo se o ato de beber não parecer ruim, esse ato é um dos principais culpados que impedem a sabedoria, destruindo as virtudes. Além dos primeiros quatro preceitos, em consequência os budistas deveriam manter seriamente o preceito de não beber para guardar suas virtudes e avançar para as doutrinas que transcendem o mundo, que têm à sabedoria como fundamento.

Aquele que mantiver os cinco preceitos por toda a vida,
receberá toda a boa fortuna. Os cinco preceitos, acima referidos, são preceitos puros que deveriam ser mantidos pelos upāsakas e upāsikās.

Quando procuramos refúgio expressamos a vontade de: “Eu vou procurar refúgio toda a minha vida no Buda, no Dharma (lei) e no Sangha” (comunidade): as três joias; devemos ainda aceitar e manter os cinco preceitos por toda a vida e fazer votos para seguir os Três Tesouros.

Aceitar os cinco preceitos é a prática efetiva de seguir os Três Tesouros. As pessoas que procuram refúgio, mas que não aceitam nem mantêm os cinco preceitos podem ser chamadas de upāsakas e upāsikās, mas só de nome. 

Quando procuramos refúgio e dizemos “A contar de hoje até o final da minha vida vou proteger aos seres viventes”, este é o voto para aceitar os preceitos.

Aqueles que com sinceridade procuram refúgio nos Três Tesouros não rejeitarão aceitar e manter os cinco preceitos. A fé sem um melhoramento relevante na conduta de uma pessoa é uma prova clara da ausência da fé real. 

Não podemos ser upāsakas completos se não temos uma fé real.

Depois de ter aceitado os cinco preceitos e de ter a capacidade de mantê-los com pureza, teremos a boa fortuna. Isto pode ser comparado ao fato de obter uma pérola que outorga desejos; depois de obtê-la podemos obter também outros tesouros. 

Mantendo os preceitos não quebramos as leis seculares e assim ganhamos respeito da sociedade. Isto satisfaz aos humanos e aos seres divinos e os espíritos divinos aparecerão para nos proteger. Os fantasmas e espíritos malvados farão todas as diligências para retroceder; tudo será auspicioso. 

Aqueles que têm mentes puras e que mantêm os preceitos sem fazer o mal podem renascer como humanos ou seres divinos; com os preceitos como fundamentos para a meditação e a sabedoria, eles podem iniciar o mérito que transcende o mundo.

BUDISMO


Buda de Kamakura (8/4/556- 476 a. C)- Japão (35 m).


NOME: Siddhartha Sakyamuni Gautama 

NASCIMENTO: 08/04/556 a. C. - Kapilavastu, hoje Rumindei, Nepal.

Popularmente dito e escrito simplesmente Buda, foi um príncipe da região nordeste da Ásia Meridional (Nepal) que se tornou professor espiritual e fundou o Budismo. Era filho do rei Sudhodama e da rainha Maya, foi o primeiro a aprender a arte de esquecer o próprio eu: viver com atenção, cujo símbolo é o tiro com arco e flecha.

De acordo com o budismo, durante a sua iluminação, acontecida em Bodhigaya – Índia, 120 km de Benares: Varanasi)), Sidarta compreendeu as causas do sofrimento e os caminhos necessários para eliminá-lo. Estas descobertas tornaram-se conhecidas como as Quatro Nobres Verdades, que são o coração dos ensinamentos budistas. Com a realização dessas verdades, um estado de suprema liberação, ou nirvana, é acreditado ser possível ao alcance de qualquer ser. 

O Buda descreve o nirvana como um estado perfeito de paz mental, livre de toda ignorância, inveja, orgulho, ódio e outros estados aflitivos. Nirvana é também conhecido como o fim do ciclo samsárico (samsara: transmigração da alma), em que nenhuma identidade pessoal ou limites da mente permanecem.

Para Buda, o reto esforço e a reta atenção (sati) constituem uma condição para a concentração meditativa (samadhi) que leva à perfeita iluminação (bodhi) que com Buda aconteceu em Bodhigaya (Índia), onde hoje há o templo Mahabodhi: o templo do grande despertar!

O budismo rejeita os fundamentos da antiga religião indiana, a autoridade dos Vedas e, com isso, a dominação dos brâmanes e os sacrifícios cruentos. Tudo isso passa a ser substituído pela espiritualização, pela interiorização, pelo aprofundamento.

Buda percorreu este caminho por si próprio, com suas próprias forças, atingindo o Nirvana antes de morrer, tornando-se assim o único arhat (santo) ainda em vida. Para Buda não existe nenhum Deus criador todo-poderoso!

Aos 80 anos de idade, Buda disse a seus seguidores que estava prestes a deixar para trás seu invólucro terreno. Em seguida aceitou uma refeição de carne de porco e cogumelos que lhe fora oferecida por um ferreiro.

Os devotos dizem que essa última refeição não teve relação alguma com sua morte, mas o fato é que cogumelos e carne de porco eram alimentos de alto risco na Antiguidade, devido à triquinose (parasitas) na carne e às toxinas presentes nos cogumelos. 

Um chá de cogumelos frequentemente eram ministrados às pessoas como veneno. Alguns dizem que se tratou de eutanásia. Seja como for, Buda morreu logo depois disso e seu corpo foi cremado.

Doutrina do Budismo (Hans Kung)

Muitas vezes, tem-se afirmado que o Budismo não seria, na verdade, uma religião, mas sim uma filosofia. Uma filosofia, no entanto, é o que o Budismo precisamente não é. O que ele pretende oferecer não é nenhuma explicação do mundo.

Ele é religião, é doutrina e caminho de salvação. E, com efeito, o Buda, de certa forma, se entendeu como algo que se assemelha a um médico, alguém que pretende ajudar o homem sofredor a encontrar libertação e redenção.

O Budismo é, pois,  como um remédio, que cada um tem de experimentar por si próprio. Nesse sentido, o Buda é algo assim como um psicoterapeuta de hoje, que ajuda a pessoa a superar as crises da vida, a dominar a dor, a lidar com suas limitações, com sua finitude e com sua condição mortal.

Mas é também mais do que um psicoterapeuta. Ele é mais radical. Mesmo na iluminação, experimentou que, quando a o homem alcança a visão de tudo, ele pode reconhecer que nada do que ele vê é estável, que nada no mundo é permanente, que tudo muda, ou mesmo que o seu próprio eu, a que tanto ele se apega, não possui no fundo nenhuma substância permanente, sendo também perecível.

O sofrimento, portanto, de que o homem precisa ser curado, é causado precisamente por esse apego ao seu próprio eu. Através da terapia do Buda, o homem precisa aprender a libertar-se do seu próprio eu. Precisa encontrar o caminho do meio (Madhyamaka) para a renúncia de si, que então o tornará livre para uma compaixão (patere cum: sofrer com) universal. Isso é algo que na verdade também não deveria ser estranho ao cristão.

Essa doutrina budista do “não eu”, portanto, não é nenhuma doutrina metafísica. Isso por princípio o Buda rejeita. O que ele deseja é ajudar para que se possa chegar à experiência pessoal de uma maneira inteiramente é tica e prática: da prisão do próprio eu na ganância, no ódio, na cegueira, deve o homem voltar-se para a renúncia de si mesmo, distanciando-se do egocentrismo do eu, que não tem substância.

E assim, entre os budistas, também se discute se o eu apenas não é nada sólido, imutável e substancial ou se na verdade ele nada possui de real. Pois, a autorrenúncia, no sentido ético, também não é estranha ao Cristianismo. Podemos let na Bíblia: “Aquele que procura preservar a sua vida há de perdê-la” (Lc 17,33).

Essa é uma tese fundamental para o diálogo entre budistas e cristãos!