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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

ÉTICA NO CRISTIANISMO




No link acima vocês terão acesso a um artigo sobre Ética no Cristianismo, escrito por Ivan Tadeu Panicio Júnior.

CRISTIANISMO E O ABORTO

CRISTIANISMO E ABORTO: aspectos jurídicos e filosóficos

1 INTRODUÇÃO

Um dos grandes questionamentos relativos à legalidade do aborto diz respeito à existência; ou não, de vida na fase intrauterina dos fetos. Grupos de pessoas defendem que a efetiva decoisificação do feto se dá apenas após o nascimento, outros, no entanto, que asseveram que a vida existe a partir da fecundação do óvulo pelo espermatozóide.

Levando-se em consideração às diversas proposições, tem-se, a partir da abordagem in fine, a dialética entre os diversos argumentos, levando o leitor a uma maior reflexão sobre a temática “CRISTIANISMO E ABORTO: aspectos jurídicos e filosóficos”, sobre a qual se discorre o posicionamento da Igreja Católica, dos aspectos jurídicos civis e de grupos de pessoas favoráveis ao aborto provocado.

2 O ABORTO

No aborto presume-se a interrupção de vida, provocado pela própria gestante, por terceiros sem o consentimento da gestante, ou ainda, quando provocado por terceiros com o consentimento da gestante.

Destarte às situações em tela, tem-se como formas mais comuns da prática de aborto:
a)   Sistema de aspiração: com esse método, o feto é sugado por um aspirador, que sendo introduzido no útero materno, suga e arranca os pedaços do feto até sua total eliminação;
b)  Método de corte: utilizado para interromper a gravidez no início da gestação, um raspador é introduzido para separar o feto e cortá-lo em pedaços, provocando grande hemorragia na mãe. O médico tem que ter o cuidado de verificar se nenhuma parte do nascituro fica no ventre materno, para não provocar infecção;
c)   Método de Injeção com substância salina: injeta-se o veneno no feto quase sempre com mais de 18 semanas, e este leva mais de uma hora para morrer, expelindo a mãe um filho morto por envenenamento, em torno de 24 horas depois;
d)    Cesariana: utilizada para crianças com mais de 1kg, e depois, deixa-se a criança morrer, numa lata de lixo, apesar de ter nascido viva;
e)   Queimar: o feto é queimado até sua eliminação.

Vale ressaltar que independentemente do método de aborto utilizado, a dor do feto ou do bebê, é uma constante. Mas de que importa!

3 VISÃO CRISTÃ SOBRE O ABORTO
"Morrer se preciso for, matar nunca" (Marechal Rondon)

A Academia Nacional de Medicina de Buenos Aires (apud CRUZ, 2001) foi contundente ao afirmar, no dia 28 de julho de 1994, que: “A vida humana começa com a fecundação”. Ao ser realizada tal afirmativa, a universidade apresenta um fato científico com demonstração experimental, saindo-se da conjectura empírica, metafísica ou simplesmente de uma hipótese teológica.

Antecipando-se à afirmativa da Academia Nacional de Medicina de Buenos Aires, a Igreja Católica já reconhecia a existência de vida humana desde a fecundação, acrescentando ainda, a necessidade de respeitá-la e protegê-la contra todo tipo de ameaça a esse direito.

A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o ser humano deve ter reconhecidos os seus direitos de pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo ser inocente à vida. (JOÃO PAULO II, 1993, p. 591).

Firmando trincheira contrária ao aborto provocado, desde o século I, a Igreja considerou-o como maldade moral. Ratificando este ensinamento até os nossos dias, que continua invariável. O aborto direto, quer dizer, querido com um fim ou como um meio, é gravemente contrário à lei moral, assim gravada em Diogneto (5, 5): “Não matarás o embrião por aborto e não farás perecer o recém-nascido”. (JOÃO PAULO II, 1993, p. 592).

Destarte, para os cristãos, foi Deus, o senhor da vida, quem confiou aos homens o nobre encargo de preservar a vida para ser exercido de maneira condigna ao homem. Por isso a vida deve ser protegida com o máximo cuidado desde a concepção. O aborto e o infanticídio são crimes hediondos.

No que concerne a cooperação formal para um aborto, é tida como falta grave. A Igreja sanciona com uma pena canônica de excomunhão este delito conta a vida humana.

Quem comete aborto, produz um prejuízo irreparável ao inocente morto, a seus pais e a toda a sociedade. “Quem provocar aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae” (cân 1398 apud JOÃO PAULO II, 1993, p. 592).

Dada sua essência humana, o embrião deverá ser tratado como uma pessoa desde a concepção, por conseguinte, defendido em sua integridade, cuidado e curado, na medida do possível, como qualquer outro ser humano.

O art. 128 do CP (Código Penal) permite a realização de aborto em duas situações, em caso de estupro e/ou risco de morte para a gestante. Vale ressaltar, no entanto, que o ser humano é o mesmo, antes ou depois do nascimento, dentro ou fora do útero.

Outrossim, ao legalizar o aborto nestes casos dever-se-ia, para conservar a coerência, autorizar a morte de todos os adultos concebidos em um estupro, ou em caso de risco de morte para a mãe.

4 ASPECTOS JURÍDICOS DO ABORTO

Em se tratando da Constituição Federal, no seu art. 5º, a nossa Lei Maior garante a todos os brasileiros e a todos os estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. (BRASIL, 1998).

O direito fundamental à vida é cláusula pétrea, isto é, não pode ser modificado por uma emenda constitucional, ou por lei, mas apenas por uma nova Assembléia Constituinte.

Qualquer lei que viole o direito à vida é lei inconstitucional, é lei nula, que não pode produzir efeitos. Qualquer projeto que propõe a legalização do aborto ofende o direito à vida e, por isso, é inconstitucional. (BELINATI, 2005).

O art. 2º do Código Civil, por sua vez, diz que “[...] a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com a vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”. (CAHALI, 2003).

Antes de nascer, o nascituro já é protegido pelo direito civil brasileiro. Depois de nascer, ele será sujeito de direitos e deveres. Mas antes de nascer já recebe proteção jurídica, podendo, por exemplo, receber doações, heranças, a filiação paterna, podendo ter um curador à sua disposição. A gestante terá direito à licença maternidade, para cuidar de si e do nascituro. E o Estado tem obrigação de oferecer saúde pública, para garantir a boa saúde da gestante e do nascituro.

Outrossim, a prática do aborto atenta contra o art. 7º do Estatuto da Criança e do Adolescente que diz: A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência. (BRASIL, 2005).

E acrescenta ainda no seu art. 8º, “É assegurado à gestante, através do Sistema Único de Saúde, o atendimento pré e perinatal.” (BRASIL, 2005). Ou seja, o Estado tem a obrigação de oferecer condições para a gestante ter o filho sadio e em condições dignas. Não tendo, por sua vez, o direito de provocar a morte do nascituro.

O Código Penal brasileiro no art. 124 pune o aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento, com pena de detenção, de um a três anos. (PINTO, 2006).

O aborto provocado por terceiro, previsto no art. 125 do Código Penal, pune o aborto provocado sem o consentimento da gestante, com pena de reclusão, de três a dez anos. (PINTO, 2006).

O art. 126 do Código Penal pune o aborto provocado com o consentimento da gestante, com pena de reclusão, de um a quatro anos. (PINTO, 2006).

O aborto provocado em menor de quatorze anos, ou em alienada ou débil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência, é punida com pena de reclusão de três a dez anos, segundo o parágrafo único do art. 126 do Código Penal. (PINTO, 2006).

O art. 128 do Código Penal diz ainda que não se pune o aborto praticado por médico, se não há outro meio de salvar a vida da gestante; ou se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. Ainda assim há o crime de aborto. Só não haverá punição em tal hipótese, em face da isenção da pena. (PINTO, 2006).

Uma situação controversa, e que merece reflexão diz respeito aos casos de anencefalia, que é tida como uma anomalia de desenvolvimento do feto que consiste na ausência total ou parcial de cérebro.

A constatação da existência de anencefalia no feto, ainda no interior do ventre materno, se deve ao alto grau de evolução da nossa medicina. A questão é, existe vida ou não no feto anencefálico?

Martins (2004) discorre sobre a experiência de um pai que deu acompanhamento à gestação de um feto anencefálico, através de ultra-som, afirmando que nos primeiros meses de vida, as mãozinhas da criança passavam pela cabeça, numa clara demonstração que sentia a perda gradativa ou a má-formação de seu cérebro.

Inobstante, a legislação brasileira assegurar o direito do nascituro e de determinar um posicionamento quando ocorre o nascimento com vida e outro quando ocorre o nascimento com morte, o bem jurídico maior tutelado é a vida.

Diz o art. 2° do CC (Código Civil): “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção os direitos do nascituro.”

Contextualizando a vida, vale ressaltar o posicionamento inconteste da CF/1988, que no seu art. 5º, ratifica a inviolabilidade do direito à vida como direito e garantia fundamental.

A palavra “VIDA” é extremamente abrangente, principalmente, sob o prisma da física onde até os objetos inanimados tem vida, pois, formados de átomos, os quais, embora invisíveis, estão em constante movimentação.

Assim, devemos limitar a “VIDA” no campo biológico e aí é que se encontra a raiz das dissensões, principalmente, se tratando de ser humano e, em especial, ao feto em desenvolvimento no ventre materno que, em razão de anomalia própria, não tem o cérebro de forma total ou parcial. Teria vida uterina o feto sem cérebro?

Assim se manifesta a Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o nascimento vivo, afirmando ser [...] a expulsão ou extração completa do corpo da mãe, independente da duração da gravidez, de um produto de concepção que depois da separação, respira ou apresenta qualquer outro sinal de vida, tais como: batimento do coração, pulsação do cordão umbilical ou movimentos eletivos dos músculos de contração voluntária, restando ou não cortado o cordão umbilical e estando ou não desprendida a placenta. Cada produto de um movimento que reúna essas condições se considera como uma criança viva. (OMS).

Desta feita, cabe indagar se o desenvolvimento de um feto anencefálico, no interior do útero materno, se deve a ele mesmo ou ao esforço da própria mãe que lhe empresa a “UTI” materna? Assim, a interrupção de uma gravidez de feto anencefálico seria aborto ou operação terapêutica?

Desta feita, ressalta-se que a antecipação terapêutica do parto é um eufemismo do ato, e no ato da antecipação o óbito do feto seria diretamente conseqüente da prática e não por sua patologia, a patologia não torna o feto menos humano que qualquer outro ser, assim deve desfrutar de seus direitos versados no art. 5° da Constituição Federal, diz respeito ao princípio da igualdade, a inviolabilidade do direito à vida, assim o ato a vida não se pode medir pelo tempo.

No aborto presume-se a interrupção de vida, o que é crime tipificado no artigo 124 do CP (Código Penal) quando provocado pela própria gestante, ou no artigo 125 do CP quando provocado por terceiros sem o consentimento da gestante e no artigo 126 do CP quando provocado por terceiros com o consentimento da gestante.

É ponto pacífico e incontroverso que o cérebro é o administrador de todas as funções do corpo humano, dentre as quais, os cinco sentidos, isto sem mencionar a questão abstrata do pensamento, do raciocínio, etc.

Assim, seria justo/humano permitir a uma mãe que levasse em seu ventre, por nove meses (período de gestação) um feto anencefálico que fatalmente, após o parto, após o desligamento do cordão umbilical iria morrer? Ou deveria a Justiça ou o Legislador deixar para a própria mãe a decisão de interrupção da gravidez de feto anencefálico?

Existe hoje em curso no Supremo Tribunal Federal uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n. 54/2004, da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde (CNTS), tendo o Ministro Marco Aurélio como Relator, onde se discute esta questão do feto anencefálico, sendo que, no primeiro momento, foi concedida a liminar para suspender os procedimentos judiciais hoje em curso, referente ao assunto, bem como, reconhecer o direito da gestante de submeter-se a operação terapêutica de parto de fetos anencefálicos, com apoio de toda classe e associação médica.

Posteriormente, a segunda parte da liminar acima mencionada foi revogada por voto da maioria, vez que, ainda discute-se sobre a admissibilidade da referida ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental).

A legislação penal, ao criminalizar o aborto, em 1940, estabeleceu apenas duas exceções: risco de vida para a gestante e gravidez resultante de estupro. Assim sendo, “[...] se ela não previu a hipótese da anencefalia do feto, é porque não possuía bola de cristal: na época, a ciência ainda não tinha tornado possível o diagnóstico médico dessa patologia durante a gestação.”

Assim, se o próprio direito positivo não reconhece vida na ocorrência de morte encefálica, porque então, insiste na manutenção intrauterina de feto com anencefalia?

No inciso I do artigo 128 do CP não existe polemica, vez que, o fim é para salvar a vida da mãe, porém, no inciso II do mesmo artigo temos um feto saudável, com vida, que, apesar de não ter culpa do pai ser estuprador e da mãe ser vítima, tem sobre si a pena capital.

Outrossim, há que se discutir se o anencéfalo é um ente humano “morto” simplesmente porque não emite ondas cerebrais. Se assim não fosse, chegaríamos à absurda conclusão de que um nascituro de menos de seis semanas também estaria "morto" por não emitir ondas cerebrais. Se ele não as emite, é pelo simples fato de seu cérebro ainda não ter sido formado.

A esse respeito, afirma Seifert (apud LODI DA CRUZ, 2005): “A vida humana, porém, está presente desde a concepção, e é a partir desse momento (e não a partir da emissão de ondas cerebrais) que a lei põe a salvo os direitos do nascituro” (art. 2º, Código Civil). É, portanto, um erro grave servir-se da Lei 9434, de 3/2/1997 e da Resolução n.º 1.480 de 08/08/1997 do CFM, para concluir que o anencéfalo está "morto".

Dessa forma, ausente das questões políticas e das paixões religiosas, temos para nós ser Justo e Humano devolver o poder de decisão a gestante para que a mesma possa decidir se interrompe a gravidez mediante operação terapêutica de parto descaracterizando com isto, qualquer ilícito penal, quer seja contra a gestante, quer seja contra o médico, ou, se por questões religiosas, pessoais, até outras, como erro no diagnóstico médico, resolver cumprir o período de gestação, quem sabe, na esperança da ocorrência de “algum milagre” possa o filho sobreviver.

No que tange à constitucionalidade, ou não, a ADPF nº 54, vale ressaltar que trata-se apenas de um parecer técnico, sem força de lei, do qual a justiça pode usufruir quando da tomada de suas decisões, outrossim, pode ainda funcionar como remédio jurídico, sem contudo deixar a ermo a relevância e a complexidade do tema, até mesmo pelo fato de ainda não haver uma legislação específica para tratar dos casos de anencefalia, necessitando portanto que o Congresso Nacional possa se manifestar sobre o caso, por trazer também o condão cultural, ético e moral da sociedade brasileira.

Mormente à valorização da vida como bem maior, e haja vista a insipiência da ADPF nº 54 diante discussões sobre o tema do aborto ou interrupção terapêutica da gestação de anencéfalo, e levando-se ainda em conta que a gestação de um feto normal possui as mesmas intercorrências, inclusive de aumento e diminuição de hormônios, fatores psicológicos, dentre outros. Cabe à mãe, com apoio e orientação psicológica, levar a cabo todos os cuidados de uma gestação normal.

6 CONCLUSÃO

Diante das diversas proposições apresentadas tanto nos aspectos cristãos e jurídicos, nos levam a refletir sobre o fundo laico do Estado de Direito, do Brasil, o qual vive sob a égide da lei civil. Podendo, dessa forma, apartar-se do sentimento religioso inerente à cristandade.

No que tange à lei civil, ocorrem autorizações para realização do aborto, que mesmo diante do reconhecimento do crime, elimina-se a pena, que se configuram nos casos de estupro e risco de morte para a mãe. Outrossim, no que tange o aspecto cristão, a vida é dom, gratuidade, sob a qual ninguém está autorizado a descer a espada para ceifá-la ou coloca-la em perigo, principalmente no que concerne àquele que está impossibilitado de defender-se:o nascituro.

Diante do exposto, e levando-se em consideração o direito irrevogável à vida, conclui-se como prática condenável qualquer prática atentatória à vida e principalmente daquele que é a maior vítima, inocente: o embrião ou feto.

REFERÊNCIAS

BELINATI, Roberval Casemiro. Aspectos Jurídicos Contra o Aborto: In: Primeiro Seminário Nacional em Defesa da Vida. Brasília, 2005.
BITTAR, Eduardo C. B. Curso de ética jurídica: ética geral e profissional. São Paulo: Saraiva, 2002.
_____. Curso de filosofia do direito. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2004.
BLAY,Eva.Opinião. Disponível em: <http://www.fpabramo.org.br/td/td22/td22_opinião03.htm>. Acesso em: 22 maio 2009.
BRASIL. Código de Defesa do Consumidor (CDC) - LEI Nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Disponível em: <http://www.mj.gov.br/DPDC/servicos/legislacao/cdc.htm> Acesso em: 18 de out. 2009.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Organização do texto: Juarez de Oliveira. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1990. 168 p. (Série Legislação Brasileira).
CAHALI, Yussef Said (Org.). Código Civil. Código de Processo Civil. Constituição Federal. 5 ed. São Paulo: RT, 2003.
CRUZ,Luiz Carlos Lodi da. Aborto e Moral. Disponível em: <http://www.universocatolico.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=11994&Itemid=3>. Acesso em: 20 de maio de 2009.
NASSETTI, Pietro (trad.). Ética a Nicômaco: Aristóteles (texto integral). São Paulo: ABDR, 2003. (Coleção a Obra-prima de cada autor).
PAULO II, João. Constituição Apostólica Fidei Depositum. Petrópolis: Vozes, 1993. (Catecismo da Igreja Católica).
PINTO, Antônio Luis de Toledo; WINDT, Márcia Cristina Vaz dos Santos; CÉSPEDEF, Lívia. Vade Mecum. São Paulo: Saraiva, 2006.
SCHOR, Neia; ALVARENGA, Augusta T. de. O aborto: um resgate histórico e outros dados. Disponível em:<http://.fsp.usp.br/schor.htm>. Acesso em: 22 maio 2009.
ZAJDSNAJDER, Luciano. Ética, estratégia e comunicação da modernidade à pós-modernidade. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2002.

CRISTIANISMO (Parte 15 - Séculos XIX e XX)

Com certeza a descoberta (ou afirmação) da ciência ocupou o espaço de grandeza ou novidade deste século, ou melhor, de todo este início do período que chamamos de Contemporâneo. Os seres humanos - ou pelo menos aqueles que tinham condições concretas para isto – encantaram-se com seu próprio saber, seu próprio conhecimento acumulado e como este poderia vir a ser metodológico, e grande parte da intelectualidade ocupava-se da construção destes processos e metodologias do saber, difundido como “ciência”. 

Os “Homens cultos do período não estavam apenas orgulhosos de suas ciências, mas preparados para subordinar todas as outras formas de atividades intelectuais a ela.” Muitas foram as descobertas e as novas terminologias utilizadas por esta classe de novos intectuais 'científicos' que surgia: “[...] As palavras- chave da filosofia e ciência em meados do século passado eram “natureza”, “meio ambiente”, “história”, “evolução” e “crescimento”. Karl Marx havia dito que a consciência humana era um produto da base material de uma sociedade. 

Charles Darwin mostrou que o homem era produto de uma longa duração biológica e o estudo de Freud sobre o inconsciente deixou claro que as ações dos homens frequentemente são devidas a certos impulsos ou instintos “animais”, próprios de sua natureza [...]” Devemos nos situar, percebendo que o mundo da fé deste momento já não era mais monopolizado pela Igreja Católica. 

A Europa já havia passado por quase dois séculos de modificações protestantes. Estava repleta de Igrejas nacionais, Igrejas protestantes independentes, grupos e instituições de fins missionários protestantes levavam esta nova fé a muito povos que logo deixavam de ser Católicos, Ortodoxos, etc. Porém, podemos perceber que os reflexos destas novas teorias (evolucionismo, antropocentrismo, etc) que se difundiram foram os mais diversos, dependendo da instituição.

No caso da Igreja católica: “[...] A Igreja (Católica) protestou veemente e a ciência na Inglaterra se dividiu. Na verdade isso já era de se esperar, pois Darwin sempre tinha contestado o fato de se atribuir a Deus o ato da criação. Alguns poucos fanáticos, porém, chegaram a afirmar que seria um feito ainda maior criar algo que já trouxesse dentro de si a possibilidade latente de evoluir, -m vez de criar para todo o sempre alguma coisa pré-estabelecida em todos os seus detalhes [...]”.

É bom frisar que quando Jostein Gaarden, na afirmação acima, diz que 'alguns fanáticos', apesar de tudo, defendiam a criação como um ato divino e apresentavam tudo quanto se descobria como mais uma prova da sabedoria divina, precisamos considerar que estes 'fanáticos' não eram tão poucos assim e que naquele período a explicação 'teológica' do mundo estava muito presente no meio da intelectualidade: “[...]Em muitos círculos de estudiosos na época de Darwin era corrente a suposição de que Deus teria criado a terra havia cerca de seis mil anos. E as pessoas tinham criado esse número contando todas as gerações desde Adão e Eva até o presente [...]”.

Fato é que as afirmações de Darwin, foram seguidas de ataques à fé, feitos por muitos outros intelectuais da época . Esta nova noção da realidade não teve nem início e nem fim neste período. É um teólogo que afirma: “[...] Com Kant (1724-1804), inicia-se um novo modo de pensar o homem”. Kant o via como cidadão dos dois mundos: o mundo material e o mundo espiritual. Segundo ele, o Homem só pode adquirir um conhecimento prático ou moral do mundo, de si mesmo e de Deus; jamais um conhecimento absoluto. 

A partir dessa forma de pensar, na qual o pensamento metafísico e o da razão pura são questionados, o Homem começa ser visto sob diversas formas e por diferentes pensadores, tais como: Darwin (1809-1882): o Homem biológico-evolucionista; Kierkegaard (1813-1855): o Homem existencial; Marx (1818-1883): o Homem econômico; Freud (1856-1939): o Homem instintivo e outros [...]”. A consequência quase que imediata das afirmações de Darwin e dos mais diversos filósofos, cientistas e ‘sociólogos’ (se é que já podemos chamar Comte de sociólogo), é o surgimento de um sentimento de desprendimento das estruturas eclesiásticas, de independência.

Pois, se outrora elas estavam ali, dentro do Estado, sendo mantidas por ele e até monopolizando serviços públicos (casamento, enterros, registro de crianças, etc), em troca de uma esperada ‘reconciliação com a divindade’, ou melhor: em troca das respostas que estas denominações (principalmente Igreja Católica) pudessem oferecer às mais difíceis questões da vida: a origem, a morte, os infortúnios, etc.

Ora, agora diante das novas teorias, já se negava até mesmo a ‘criação’, e diante da dúvida gerada, propunha-se que a resposta à estas questões fosse de foro íntimo, de direito particular e não público. Não mais o Estado deveria endossar o que seria a ‘verdade’, diante das dúvidas apresentadas, mas sim daria liberdade ao indivíduo para que esse em seu pleno estado de racionalidade pudesse escolher. Assim surge uma forte campanha de Laicização do Estado, mas que trazia no seu interior uma também forte laicização do pensar e do agir: “[...] Chamamos de secularização ou laicização do pensamento o cuidado de se desligar das justificativas baseadas na religião, que exige adesão pela crença, para só aceitar as verdades resultantes da investigação racional mediante argumentação [...]”.

Essa campanha pela laicização social também foi conhecida como ‘campanha anticlerical’, pelo fato de suas principais propostas serem voltadas para o fim da participação clerical no Estado: “[..] O anticlericalismo era militantemente laico, na medida que pretendia tomar da religião qualquer status oficial na sociedade (“desestabelecimento da Igreja”, separação da Igreja do Estado”), deixando-a como uma questão puramente privada. Deveria ser transformada em uma ou diversas organizações puramente voluntárias, análogas aos clubes de colecionadores de selos, somente que em dimensões maiores [...]”.

O interessante é que esta campanha não apenas envolveu adeptos do darwinismo ou homens ateus (isso ainda não era tão comum assim), mas também autoridades que queriam ver-se livres dos mandos e desmandos da Igreja: “[...] Mas isso não se baseava tanto na falsidade da crença em Deus ou qualquer versão particular dessa crença mas na crescente capacidade administrativa, amplitude e ambição do Estado laico – mesmo na sua forma mais laissez-faire e liberal- que estava decidido a expulsar organizações privadas daquilo que então considerava seu campo de ação [...]”.
A Igreja, obviamente reagiu, atacando de todas as formas a raiz deste mal: o pensamento científico e a produção de conhecimento. O resultado foi uma Igreja Católica mais fechada ainda: “[...] Em certo sentido, diante da ameaça da reforma laica, a Igreja reagiu da mesma forma como havia feito no século XVI com a Contrarreforma. O catolicismo, agora totalmente intransigente, recusando qualquer acomodação com as forças do progresso, industrialização e liberalismo, tornou-se uma força muito mais poderosa depois do Concílio Vaticano I (1870) do que antes [...]”.

A fé, porém, foi pouco abalada. Em sua clássica obra, A Era do Capital, o historiador Hobsbawm nos fornece uma série de argumentos que nos fariam acreditar que, por fim, no século XIX a Religião estava derrotada, porém ele mesmo contraditoriamente afirma que até mesmo entre muitas pessoas cultas a religiosidade e o culto permaneceram.

Inclusive alguns estudos afirmam que este foi o período em que as camadas mais pobres tiveram a oportunidade de descobrir uma religiosidade mais legítima: nacional, protestante, de língua nativa, etc. Nas palavras de Hobsbawm: “[...] Na medida em que as classes médias estavam em questão, o declínio da religião era, como vimos, inibido não apenas pela tradição e fracasso em larga escala do racionalismo liberal em fornecer um substituto emocional coletivo para o ritual e a fé religiosa (exceto talvez através da arte), mas também pela relutância em abordar um pilar de estabilidade, moralidade e ordem social tão valioso, talvez tão indispensável [...]”.

O homem não sabe viver distante da ‘transcendência’ ou sem procurá-la. Gostaria de aqui recordar o caso de Augusto Comte, grande estudioso, proponente de muitos métodos científicos, criador de uma gama de ‘ciências humanas’ e grande filósofo, que em seus últimos anos dedicou-se a estruturar aquilo que deliberadamente chamou de “Religião da Humanidade”. Ela, à semelhança das demais religiões, possui dogmas, cultos e regimes, templos e capelas; sacramentos, sacerdotes e assim por diante. Todavia, uma particularidade distingue-a radicalmente: ela é uma religião "positiva" ou "científica", no sentido de que não venera um ser superior sobrenatural.

Comte nos pareceria como um caso isolado de desvaneio senil, se não houvesse sido seguido por muitos na estruturação de tal Igreja que possui templos em vários lugares do mundo. É claro que hoje tal estrutura encontra-se em instinção, pelo poder de apelo da concorrência e devaneio da ideia inicial. Mas ainda assim quem lê este artigo pode imaginarr que Conte possa ter sido o único a ter tal alusão, de dentro do ‘laico’, construir algo que imitasse ou recorresse ao religioso. Falo das mais diversas sociedades secretas que surgiram, ou pelo menos se alastraram na Europa e na América por este período.

Estas instituições, por detrás de suas ‘lojas’, guardavam em suas fileiras, o qua havia de mais ‘racional’ ou ‘científico’, dentre os intelectuais e políticos: “[...] A metade do século XIX está plena de rituais laicos inventados, especialmente nos países anglo-saxôes, onde sindicatos elaboraram faixas alegóricas e certificados.Sociedades de ajuda mútua, cercada por sua vez com parafernália da mitologia e do ritualismo nas suas “lojas”, membros da Klux-Klan, Organgemen e outras ordens políticas menos “ secretas” exibiam suas vestimentas. 

A mais antiga e sem dúvida a mais influente de todas as sociedades secretas, ritualizadas e hierarquizadas estava de fato comprometida com o pensamento livre e o anticlericalismo pelo menos fora dos países anglo-saxôes: os francos-maçons [...]”. Se estes poucos dados levantados, podem nos mostrar, ou levar a alguma conclusão, talvez esta seja que o ser humano ainda não está pronto, ou nunca estará, para abandonar o conforto e a segurança que as relações (que atualmente chamam-se de) míticas proporcionam. A ordem e a justificativa pela fé ainda eram, na Era do Capital, e ainda são, nos dias de hoje, o conforto e a esperança de uma multidão. 

O autor Volker Elis Pilgrim, em uma de suas obras, na qual faz uma bibliografia crítica da vida pessoal de Karl Marx, vai mais a fundo e afirma que este grande ícone do pensamento ateu nada mais é do que o resultado de uma esperança mítica de justificação pela ação científica, que lhe foi incutida, inculcada, desde a infância pelos pais, que distantes da sua fé de origem, o judaísmo, sentiam esta necessidade.

Pilgrim afirma que os pais de Marx eram advogados, e que por serem judeus estavam proibidos de exercer suas funções dentro do país: “[...] Ou procurava um outro trabalho e enfrentava um futuro incerto ou saía da comunidade de fé judaica, assegurando para si, dessa maneira a prosperidade já conquistada. Hirschel e Henriette decidiram-se pela segunda alternativa. Hirschel converteu-se primeiramente ao protestantismo. O seu batismo deve ter sido realizado antes do dia 1o de março de 1818.[...]”.

O traumático resultado foi: “[...] Segundo as regras ortodoxas (judaicas) o abandono da religião significa a morte social. “ Um judeu que renega sua fé comete um pecado grave, pois não é apenas culpado no sentido pessoal e sim trai seu povo e seus ancestrais. Ele é tratado pelos membros da sua família e pelos seus companheiros de fé como um falecido. Karl Marx nasce no meio dessa situação de conflito da família” [...]. 

Como conseqüência os pais de Marx colocaram suas esperanças em uma espécie de compensação: “[...] O seu filho nascido nesse momento deveria tomar a si a reparação, deveria justificar a sua decisão a posteriori, tornar-se um bom pai (novo), que concorda com o passo que deu um “rabino secularizado”[...]. Ensinado a odiar o cristianismo desde a infância e vítima de grande ódio da comunidade judaica (parentes), desde jovem Marx constrói textos expressando esta raiva e no período da maturidade em suas teses econômicas e sociais, ele afirmará que “A Religião é o ópio do Povo”.

As conclusões a que podemos chegar variam muito, porém quero salientar que nada do que um período vive e de suas ideias expressam pode ser isolado das influências que sofria. Neste caso, uma das formas de influência é a negação. A Influência oposta, que ocorre quando alguma ideologia nos traumatiza com sua incoerência ou total desleixo com nossas necessidades. Foi o caso do Catolicismo Medieval, e suas terríveis façanhas, ao qual devemos tudo o que surgirá em contraposição a ele.

Cresce o protestantismo independente

Partindo do princípio de que as populações não vivem sem experiências e vivências religiosas, e que muitas delas já possuíam uma repulsa pelas instituições eclesiásticas tradicionais, podemos compreender o grande crescimento de Igrejas protestantes independentes e nacionais, que possuíam culto e bíblias em língua nativa, que falavam a linguagem de seu povo e iam ao seu encontro.

O fato é que apesar de muitos historiadores (tais como Hobsbawm) menosprezarem os ocorridos religiosos deste século, estes foram muito diferentes de tudo do que ocorreu anteriormente na Europa. E, segundo minhas pesquisas em muitas fontes, ao mesmo tempo que a Europa vivia sua “era do capital”, ou sua “primavera dos povos”, mudanças e conquistas sociais, também floresciam muitos grupos e lideranças de um movimento que também veio a transformar a forma de viver destas populações: o protestantismo.
O Século XX é marcado por partilhar a experimentação de muitas coisas que foram inventadas, desenvolvidas ou teorizadas nos últimos séculos por muitos filósofos, cientistas e políticos. 
O resultado, porém não foi sempre o melhor. Só para recordarmos o século XX de uma forma geral eu poderia citar alguns termos que nos trazem memórias: Industrialização, Neocolonialismo, Aviação, Automóvel, Primeira Guerra Mundial, EUA, Crise de 1929, Comunismo, Facismo, Nazismo, Segunda Guerra Mundial, Bomba Atômica, URSS, Guerra Fria, Ditadura, Hippies, Punkes, Anticoncepcional, Sexo, Vietnã, China, Coréias, Cuba, Queda do muro de Berlim, Aquecimento Global, Neoliberalismo, etc...

Este foi o século em que houve o auge do pensamento modernista no mundo todo. As pessoas foram levadas a crer cegamente na ciência, na política, no nacionalismo, etc. Parecia que o mundo estava em um avanço rumo a um futuro de paz e justiça, onde a ciência explicaria tudo e que o homem se livraria de Deus.

As muitas guerras - o efeito colateral do mau uso da industrialização, a falência do comunismo, a corrupção generalizada na política, e a ineficiência da ciência para responder a questionamentos profundos da humanidade, somados ao vazio existente em uma sociedade altamente consumista - levaram o mundo a uma gradual derrocada do modernismo, que abre as portas para o pós-modernismo.

Nessa época, o mundo passa a ser visto sob uma confusão de óticas antagônicas e onde o relativismo impera. Onde há uma perceptível falta de rumo para a humanidade. Para estudar a História do Cristianismo no século XX, é necessário percebermos que a Igreja está horas sofrendo influência deste mundo à sua volta e horas resistindo e combatendo o mesmo. Fato é que a Igreja do século XX agirá sobre este pano de fundo.

1906: Início do Pentecostalismo no Avivamento da Rua Azusa (Assembleia de Deus) 

Los Angeles Times, 1906: “Com gritos estranhos e pronunciando coisas que aparentemente nenhum mortal em seu juízo normal pudesse entender, teve início, em Los Angeles, a mais recente seita religiosa. As reuniões acontecem em um prédio decadente da rua Azusa, e os devotos de doutrinas estranhas praticam os ritos mais fanáticos, pregas as mais extravagantes teorias e se colocam em um estado de louca euforia quando se entregam ao fervor pessoal”.

William J. Seymour (fundador), pregador batista negro, havia sido aluno de Parham, fundador de muitas escolas bíblicas que pregava o avivamento e o dom de línguas. Antes deste movimento Finney, Moody e o movimento Holiness haverem dado início a um avivamento, William, porém, dava mais um passo, incentivando o batismo pelo Espírito Santo.

O Movimento, inicialmente assumiu o nome “Missão Evangélica da Fé Apostólica”. Outros líderes possuíam ministérios de avivamento espalhados pelos EUA. No sul muitos de uniram e passaram a se auto denominar “Fé Apostólica”, o movimento cresceu muito e logo passou a se chamar“ Igreja de Deus em Cristo”, que já tinha ao todo 352 ministros. Em 1914 passou a se chamar “Assembléia de Deus”.

1921: Transmissão do primeiro programa radiofônico cristão 

A KDKA foi a primeira emissora de rádio dos EUA e carecia de programação. Decidiram assim transmitir um culto de alguma Igreja em um domingo pela manhã. Isto ocorreu na Igreja Episcopal do Calvário, em Pittsburgh. Quem pregou neste dia foi Lewis B. Whittemore.

O programa foi tão bem quisto que se tornou semanal. Outro pregador, Paul Rader chegou a locar uma rádio inteira todos os domingos, por 14 horas e trazer pregações e canções cristãs. A esta programação ele deu o nome Onde Jesus Abençoa Milhares. Depois dele muitos outros pregadores partiram para o rádio, entre eles R.R. Brown.

1945: Dietrich Bonhoeffer é executado por Hitler

1949: Grande Cruzada de Billy Graham em Los Angeles 

1960: Renovação Carismática em Igrejas Tradicionais

1962: Início do Concílio Ecumênico Vaticano II por João XXIII  

1963: Martin Luther King lidera marcha para Washington 

Anos 60-70: Crescimento da Igreja Chinesa

CRISTIANISMO (Parte 14 - Restauracionismo)

Restauracionismo ou Primitivismo Cristão é a postura histórico-teológica presente em algumas denominações religiosas que acreditam que o cristianismo histórico apostatou em algum ponto de sua existência, sendo necessário restaurar o cristianismo primitivo da era apostólica.

Movimentos primitivistas incluem os hussitas, anabatistas, inseridos no contexto da Reforma Radical e os puritanos. Outros movimentos como o Adventismo, o Mormonismo e as Testemunhas de Jeová (antes chamadas de Estudantes da Bíblia) procuravam restabelecer uma igreja visível e restaurada conforme novas perspectivas de seus líderes.

Embora a presença do restauracionismo seja prevalente no seio protestante, há instâncias católicas de restauracionismo, como a Igreja Vétero-Católica e o Sedevacantismo.

Restauracionismo Anglo-Americano

No século XIX houve a ressurgência da doutrina restauracionista nos Estados Unidos e Inglaterra. Nesse último país o pastor presbiteriano Edward Irving proclamava uma restauração espiritual do cristianismo primitivo, enquanto John Nelson Darby e outros irmãos de Plymouth pretendiam restaurar um cristianismo simples e adenominacional, usando uma interpretação dispensacionalista da história.

Nessa época, durante o Segundo Grande Despertar nos Estados Unidos emergiram movimentos restauracionistas, primeiro na fronteira agrícola na região dos Apalaches, onde os Campbell e Barton Stone pregavam um cristianismo não-credal e sem barreiras denominacionais. Posteriormente, nesse mesmo contexto e região, movimentos como o Mormonismo, o Adventismo e as Testemunhas de Jeová procuravam restabelecer uma igreja visível e restaurada conforme novas perspectivas de seus líderes.

Adventistas do Sétimo Dia


Ellen Gold White

Os Adventistas do Sétimo Dia que surgiram a partir do Segundo Grande Reavivamento começado por Guilherme Miller, creem que são a Igreja Remanescente a partir da Igreja Cristã do Primeiro Século, creem nos escritos de Ellen Gould White como a revelação de Deus para o retorno a ensinos bíblicos como: a guarda do Sábado (que segundo eles é uma restauração do verdadeiro cristianismo), além disso pregam o estado inconsciente dos mortos (Eclesiastes 9:10), a regulação dietética do Antigo Testamento, e a interpretação do santuário de Daniel 8.

Testemunhas de Jeová


Charles Taze Russell

As Testemunhas de Jeová que eram anteriormente chamadas de Estudantes da Bíblia, crêem que a sua organização foi prevista na Bíblia como restauração da igreja primitiva para proclamar a mensagem original do cristianismo (Daniel 12:4 e Isaías 11:9).

As Testemunhas de Jeová acreditam que todas as outras religiões cristãs surgiram a partir de uma Grande Apostasia (1 Timóteo 4:1), sendo essas 'igrejas' Babilónia, a Grande do livro de Apocalipse, e que a fé original pode ser restaurada através do estudo intensivo da Bíblia abençoado por Deus e da interpretação exclusiva de Seu Corpo Governante ou Escravo Fiel e Prudente (Mateus 24:45), tendo estes o compromisso sincero de seguir seus ensinamentos. Elas continuaram a desenvolver doutrinas que consideram ser uma restauração melhorada da Igreja primitiva. Concentraram-se em diversos pontos-chave doutrinários que consideram um retorno ao cristianismo primitivo, derivados da Bíblia, incluindo a ênfase maior sobre o uso de Jeová (Salmos 83:18) como o nome pessoal de Deus; a rejeição do trinitarianismo (1 Coríntios 15:28), a rejeição do conceito atual de inferno (Atos 2:31 e Jó 14:13) como um lugar de tormento eterno (Romanos 6:23 e 2 Tessalonicenses 1:9); estrita neutralidade nos assuntos políticos (João 17:16); abstinência de guerra (João 13:34,35 e Mateus 16:52), e a crença na manifestação iminente do Reino de Deus (Daniel 2:44) na Terra com a transformação desta num restabelecido Paraíso (Salmos 37:29).

Santos dos Últimos Dias (Mórmons)


Joseph Smith, Jr

No entendimento dos mórmons, ou A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Bíblia Sagrada algumas partes foram corrompidas, por isso creem como restauração à Bíblia o Livro escrito por Seu Líder tido com inspirado, Joseph Smith: O Livro de Mórmon - Um Outro Testamento de Jesus Cristo, a restauração abrange também o aspecto do sacerdócio ou autoridade eclesiástica, seguindo um tipo de organização que Cristo usara quando estava na terra, isto é, profetas e apóstolos. Segundo os Mórmons, no início do século XIX, Moisés, Elias, João Batista, Pedro, Tiago, João e vários outros profetas, apóstolos e seres celestiais teriam vindo direto do céu e entregado o sacerdócio de Melquisedeque ao Seu próprio Líder: Joseph Smith, assim sendo restaurada a ordem eclesiástica da Igreja.

CRISTIANISMO (Parte 13 - Batistas, Quakers e Metodistas)

1609: John Smyth funda a Igreja Batista 

John Smyth estudou na Universidade de Cambridge e cedo foi ordenado ministro da Igreja da Inglaterra. Na Igreja anglicana foi atraído pelas ideias puritanas e separatistas e por isso foi afastado da igreja 1602.

Sua crença de que as Igrejas deviam ser formadas somente de cristãos confessos levou-o a se juntar a uma congregação separatista em Gainsborough.

Também ajudou na formação de uma congregação separada em Scrooby na casa de William Brewster. Os acontecimentos, porém o levaram para Amsterdam.

Foi lá que Smyth encontrou-se com os irmãos Menonitas, que praticavam o batismo de adultos sob uma confissão de fé pessoal já há duas gerações. Ouvindo os ensinamentos destes crentes, Smith passou a buscar nas esrituras base bíblica para o batismo infantil, e não a encontrando, adotou tal doutrina.

Então ele rompeu com os separatistas e, em 1609, batizou-se a si próprio por imersão. E, a partir deste momento, batizou diversas pessoas mediante suas profissões de fé. Entre elas estava Thomas Helwys, que voltou à Inglaterra mais tarde e fundou a primeira Igreja Batista permanente naquele país.

Antes de sua morte, porém, Smyth afastou-se dos batistas e juntou-se aos menonitas, porém a Igreja a qual dera início não o acompanhou e ficou existindo de forma independente.

1620: Peregrinos chegam aos EUA  

Em 1620, chegava aos EUA um pequeno grupo de separatistas ingleses, os quais fundaram a primeira colônia, em Massachussets (dirigiam-se para a Virgínia mas se desviaram da rota). 

Eles foram para a América do Norte em busca de liberdade religiosa, que não tinham em terras inglesas. Viajaram num pequeno navio chamado Mayflower, e durante a viagem assinaram um pacto no qual repudiavam toda a autoridade eclesiástica ou secular inglesa. 

A celebração da colheita no outono de 1621 foi a primeira festa de Ação de Graças.

1648: George Fox funda a Sociedade dos Amigos (Quakers)

Nascido na Inglaterra, Fox era filho de um tecelão e aparentemente não recebeu educação formal e fora aprendiz de sapateiro. Em 1643, o jovem sério deixou o lar e viajou em busca de esclarecimento religioso nas instituições oficias da Igreja Anglicana, acabando por viver experiências dolorosas, até que alguém lhe disse as palavras verdadeiras e, segundo seu próprio relato, em 1646, veio a contar com a "Luz Interior do Cristo Vivo". 

Fox deixou de ir à igreja, rejeitou os sacramentos exteriores e o clero, pôs de lado disputas religiosas comuns considerando-as triviais, e ensinou que a verdade deve ser encontrada antes de tudo, não nas Escrituras ou no credo, mas na voz de Deus falando à alma. 

Assim criou os "Amigos da Verdade". Fox reforçou a necessidade de se exercer o sacerdócio universal do crente, e defendeu um estilo simples de vida para seus seguidores.

Fox foi preso em 1649, por ter interrompido um culto numa Igreja de Notthingham para pregar a ideia da autoridade e liberdade plena do Espírito Santo. Em Derby, em 1650, foi condenado por blasfêmia. Diante do juiz que o condenou ele disse que aquelas pessoas deveriam “temer” diante da palavra de Deus. Por causa deste termo, como forma de zombaria, eles passaram ser chamados de "Quakers" (que quer dizer “o que treme”).

1703-1791: John Wesley, evangelista fundador da Igreja Metodista 

Nascido em Epworth, na Inglaterra, João Wesley era filho de Samuel Wesley, que foi um precursor do Não Conformismo e pároco em Epworth, que, com sua esposa, criou seus filhos num ambiente de piedade e disciplina puritana.

Aos cinco anos de idade Wesley foi salvo de um incêndio que destruiu a paróquia de seu pai e que posteriormente lhe deu motivo para que se referisse a si próprio como "um tição apanhado no fogo".

Wesley sempre teve uma educação cristã e recebeu seu título de Mestre em Artes em 1727, em Oxford. Porém, o curto período, dos 24 aos 26 anos de idade, que esteve como assistente do pai na paróquia de Wroote foi sua única experiência eclesiástica.

Mas foi uma carta do pároco de Lincoln que trouxe Wesley de volta para suas obrigações em Oxford, onde ele se juntou a seu irmão Charles,  George Whitefield e outros jovens num empreendimento que se transformou no berço do movimento metodista.

A união destes jovens causou grande comentário entre os colegas em Oxford, principalmente por se reunirem com frequência para estudarem da Bíblia, terem comunhão e juntos orarem. As pessoas se referiam a eles, sarcasticamente, como o ‘Clube Santo’, ‘Sacramentarianos’, ‘morcegos da Bíblia’, ‘fanáticos por Bíblia’ e ‘Metodistas’. 

João Wesley era chamado o "curador" ou "pai" do Clube Santo. Charles, irmão de João, foi quem começou o grupo enquanto ele estava servindo seu pai em Wroote. João quando retornou não se importou com o apelido, pelo contrário o usava como um distintivo de honra, tanto que no primeiro sermão falou de seus companheiros como "os ironizados chamados Metodistas".

Muitos anos mais tarde, em seu Dicionário Inglês, ele acabou por definir ‘Metodista’ como ‘aquele que vive de acordo com o método estabelecido na Bíblia’.

No primeiro dia do ano de 1733, no meio da controvérsia que envolvia os "Metodistas de Oxford", João Wesley pregou seu segundo sermão universitário, intitulado "A circuncisão do coração". 

Este discurso serviu para caracterizá-lo como um teólogo, pois ali ele obteve aprovação tanto do vice-chanceler como do reitor do Lincoln. Nele Wesley apresentou as duas doutrinas básicas de seu ensino: a perfeição de Cristo e o testemunho do Espírito (de que somos filhos de Deus - Rom. 8:16).

Embora o tumulto gerado pelas suas posições tenha lhe custado posteriormente a perda de salário, de muitos amigos e até da reputação, João Wesley preferia valorizar "um coração limpo, um só olho, uma alma cheia de Deus! Uma troca justa, se pela perda da reputação, pudermos comprar o mais baixo grau de pureza do coração!".

Em 1735, João e seus irmãos foram chamados ao leito de morte de seu pai. Ali Samuel Wesley disse com firmeza a João: "Testemunho interior, filho, testemunho interior - esta é a prova, a maior prova do Cristianismo".

John Wesley pregava sobre fé e amor numa sociedade que caminhava para a frieza e para a dúvida. Certo é dizer que milhões ouviram sua pregação e milhares destes responderam com fé, o que resultou no surgimento de centenas de pequenos grupos de comunhão em toda Inglaterra, e, consequentemente, num novo movimento:  o Metodismo - que ainda permanece.

1760-1831: Allen Richard, fundador da Igreja Metodista Episcopal Africana 

Allen nasceu escravo, e se converteu aos dezessete anos através de uma pregação metodista. Imediatamente começou a pregar o evangelho, primeiro para seus familiares, depois para o seu patrão, que acabou se convertendo, e finalmente para negros e brancos por toda a América. 

Allen Richard aprendeu a ler e escrever sozinho e, depois de trabalhar bastante, foi capaz de comprar a própria liberdade.

Depois de trabalhar em muitos ramos, sempre pregando como leigo, acabou chegando à Filadélfia aos vinte e seis anos. Congregava-se junto com outros negros na Igreja Metodista São Jorge. 

Porém, em 1787, um triste incidente afastou os negros daquela congregação: enquanto um amigo de Allen, Absalom Jones, orava em voz alta, os administradores brancos da Igreja o obrigaram a ir para o seu lugar, tentando mantê-lo quieto. 

Em resposta, Jones, Allen e os outros negros deixaram a Igreja. Pouco depois, Allen e Jones fundaram a Sociedade Africana Livre, a primeira organização da América criada por negros para os negros. A sociedade não era separatista e proporcionou ajuda mútua e encorajamento espiritual para a comunidade negra da Filadélfia.

Quatro anos mais tarde Jones e Allen deixaram a Sociedade e Jones veio a ser o fundador da Igreja Episcopal Negra. Em 1793 Jones e Allen lideraram outros negros na obtenção de ajuda para a população inteira da Filadélfia durante uma epidemia de febre amarela. 

Também, em 1793, Allen fundou a Igreja Betel para Metodistas Negros. E foi ordenado Pastor metodista em 1799. Por causa da predominância de brancos na Igreja metodista, que no sul dos EUA vivia um contexto de preconceito e separatismo, a congregação de Allen e outras Igrejas metodistas negras organizaram sua própria denominação:  a Igreja Episcopal Metodista Africana, e Richard Allen foi seu primeiro bispo em 1816. Allen serviu a esse grupo crescente de metodistas negros como líder amplamente respeitado até sua morte em 1831.

CRISTIANISMO (Parte 12 - Contrarreforma)

1540: A Igreja Católica aprova a Ordem dos Jesuítas

Eis a conjuntura:

* Igreja Católica caindo em descrença pela sua frouxidão moral prática;
* Crescimento do protestantismo;

Fundador

Inácio de Loyola, que havia sido um soldado espanhol e ficara um bom tempo convalescendo; ao ler um livro sobre a vida dos santos inicia uma busca interior por Deus dentro de sua alma. E torna-se uma mistura de soldado e monge autoabnegado e devoto.

Escreveu o livro “Exercícios Espirituais”, que se trata de um manual devocional com alguns passos para se encontrar a Deus.

Uma espiritualidade profunda e uma obediência leal a Igreja Romana: Estes ensinamentos de Loyola foram a base da Companhia de Jesus, Ordem que veio a ser criada.

A Companhia

A finalidade da Companhia de Jesus é a Evangelização e a Educação. Logo haviam missões jesuíticas em vários países. O papa Paulo III percebeu o quanto uma ordem deste porte, com ênfase na mensagem de Cristo e na evangelização poderia ajudar a conter a onda protestante. Enquanto o conflito com os protestantes acirrava-se na Europa, os jesuítas partiam para o exterior, levando missões ao Japão, Brasil, Índia e Etiópia por exemplo.

1545-1563: Concílio de Trento - Início da Contrarreforma 

Eis a Conjuntura:

A Igreja Romana perdendo espaço na Europa frente ao protestantismo.

1) Sacerdotes mundanos.
2) Papa Paulo III convocou uma equipe de cardeais para lhe fazer um relatório da situação da Igreja.

As constatações foram catastróficas.

Decisões:
1) Término das Indulgências;
2) Solicitação ao Clero de evitar até mesmo as menores falhas;
3) Reafirmou os 7 sacramentos como indispensáveis para a salvação em oposição aos dois 2 sacramentos protestantes (Batismo e Ceia);
4) Reafirmou a transubstanciação;
5) Reafirmou a missa em Latim;
6) Reafirmou que a única interpretação das Escrituras válida era a feita pela Igreja, rejeitando inclusive a impressão da Bíblia nas línguas locais;
7) Por fim, as reformas deste concílio ainda separaram mais as ideias católicas das protestantes.

1572: Massacre do Dia de São Bartolomeu

Eis a Conjuntura:

1) A França estava divida entre protestantes e católicos, os protestantes eram                                 chamados de huguenotes;
2) Em 1555, já haviam na França cerca de 400mil huguenotes espalhados em mais de 2000 Igrejas;
3) A rainha Catarina de Médici era católica e via ampla oposição nos líderes huguenotes.

O massacre:

1) Em 24 de agosto de 1572, as quatro da manhã, a rainha deu ordem aos seus soldados e a assassinos contratados para que matassem os principais líderes huguenotes de Paris. Estes eram homens do comércio.

2) Logo pela manhã, em meio a grande confusão gerada por esta decisão a população católica (maioria) pobre foi mobilizada contra os huguenotes e o massacre cresceu em proporções;

3) Durante dias estas pessoas foram perseguidas e assassinadas em toda a França. Historiadores falam entre 20 e 100 mil mortos naqueles dias.

CRISTIANISMO (Parte 11 - Calvinismo)



João Calvino (*10/7/1509 - +27/5/1564)

Jean Calvin é chamado de "o organizador do Protestantismo" porque em seu trabalho pastoral de organizar Igrejas evangélicas em Estrasburgo e Genebra, desenvolveu um novo modelo de Igreja.

Calvino nasceu no noroeste da França (Noyon) , sendo 25 anos mais jovem que Martinho Lutero. Seu nome real era Jean Cauvin, o qual mudou para "Calvin" anos mais tarde. Sendo estudioso, adotou a forma latina Calvinus.

Sua cidade natal, Noyon, era um importante e antigo centro da Igreja Católica Romana, tanto que um bispo morava lá e a vida da cidade praticamente girava em torno da catedral.

João Calvino era oriundo de uma família de classe média. Gerard, seu pai, depois de servir à Igreja Romana em várias funções, inclusive como escrivão, veio a ser o secretário do próprio bispo. Assim, o jovem Calvino crescia fortemente ligado aos assuntos da Igreja.

A fim de capacitar seu filho para alcançar uma posição de importância na Igreja, o pai de Calvino investiu na melhor educação possível, tanto que aos catorze anos de idade Calvino entrou para a Universidade de Paris, que era o centro intelectual da Europa Ocidental.

Lá ele frequentou o Colégio de Mantaigu, a mesma instituição na qual Erasmo estudou uns trinta anos antes. Embora Calvino se dedicasse a uma carreira similar em teologia, por diversos motivos sua formação tomou um rumo inesperado.

Primeiramente -  devido ao novo aprendizado do Renascimento, - o Humanismo  estava travando uma bem sucedida batalha contra a Escolástica,  velha teologia católica da antiga Idade Média. 
Calvino se deparou com este novo aprendizado através de outros estudantes e foi rapidamente convencido por estas ideias.

Em segundo lugar, inciava-se em Paris um forte movimento para reforma da Igreja, liderado por Jacques Lefèvre d Etaples (1455-1536). E Calvino se tornou um amigo íntimo de alguns dos alunos de Lefèvre.

O terceiro motivo está ligado às obras e ideias de Martinho Lutero que estavam circulado em Paris por algum tempo, causando uma agitação moderada; sem dúvida, Calvino se familiarizou com elas durante os anos de estudante.

Finalmente, o pai de Calvino teve uma discussão com os oficiais da Igreja em Noyon, incluindo o bispo. Em 1528, assim que Calvino obteve o seu grau de mestre de artes, seu pai lhe disse para deixar a teologia e estudar as leis. 

Sem se opor, Calvino se mudou para a escola de leis em Orleans. Ali ele se dedicou ao estudo das leis, sendo elogiado por sua maestria na matéria. Com frequência, dava aulas pelos professores ausentes.

Depois de três anos de estudo em Orleans, Bourges e Paris, conseguiu o seu doutorado e licença em leis. Durante esse percurso aprendeu grego e mergulhou nos estudos clássicos, que eram de grande interesse dos humanistas contemporâneos. Ligou-se a um grupo de estudantes que discordavam dos ensinos e práticas do Catolicismo Romano.

Em 1531, com a morte do pai de Calvino, ele se viu livre para escolher a carreira que iria prosseguir e não vacilou, optando por teologia. Excitado e desafiado pelo novo aprendizado, mudou para Paris para se dedicar a uma vida de pastoreio.

Em 1536, ele publicou a primeira versão de “Institutas da Religião Cristã”, um resumo sistemático da teologia da Reforma. Ao ler este material, o reformador de Genebra, Guilherme Farel, persuadiu Calvino a ir para aquela cidade afim de auxiliá-lo na implantação da Reforma naquele lugar. 

Lá ele pastoreou a Igreja de St. Pierre e pregava em três cultos por dia. Ainda durante sua estada nesta cidade ele produziu panfletos devocionais, doutrinários e resumos comentados da maior parte dos livros da Bíblia, apesar de ter sofrido com diversas doenças, principalmente enxaquecas.

Apesar de Genebra, inicialmente, oferecer grande oposição as ideias de Calvino, principalmente por este tentar fazê-los ter um viver cotidiano condizente com os ensinamentos de Cristo, rapidamente sua influência se espalhou pelo solo mais fértil: as escolas. De lá saíam muitas lideranças que reproduziam a confissão de fé Calvinista.

O livro de Calvino que gerou impacto na sociedade na qual viveu, bem como na posteridade foi  “As Institutas”, na qual trouxe um resumo bem claro e definido das ideias do protestantismo. Esta obra passaria a ter três volumes, sendo que um deles era dedicado ao Credo apostólico e outro à doutrina da predestinação.

Este ensinamento não era uma unanimidade de Calvino, mas de todos os protestantes, porém, pelo fato de ele dar uma grande ênfase a esta doutrina, ela ficou, com o tempo, mentalmente atrelada a este líder.

A teologia de Calvino consiste em uma compreensão de toda a história da relação homem-Deus. Desde a pré-existência de Deus, anterior a tudo, que projetou todas as coisas, que criou anjos e foi traído, que criou o universo, transformou a Terra, e criou o Homem que desde a eternidade sabia que iria cair em pecado, querendo ser autônomo, dentre os quais desde a eternidade ele predestinou a muitos para viver a eternidade consigo. Por isto, Deus faz o plano de redenção e da entrega de seu Filho por muitos.

A estes, separados desde a Eternidade, Deus envia o Espírito Santo, levando-os a ter fé em Cristo, e assim serem salvos. O porquê disto não é motivo de estudo de Calvino, que destina a Deus um verdadeiro status de Senhor, de misterioso e misericordioso Soberano, o qual a ninguém revelou o motivo desta atitude, pois por justiça poderia ter condenado a todos, mas por misericórdia salvou a muitos.

Calvino lutava, em seus ensinamentos, contra as doutrinas Católicas da salvação pelas obras, afirmando a soberania de Deus, mostrando que ele como Deus não pode nem deve ser enganado. Ele não cansou de afirmar: “Você não pode manipular Deus ou torná-lo seu devedor. É Ele que o salva; pois você não pode fazer isso por si mesmo.”

Porém ele não deixava de afirmar em seus enérgicos ensinamentos que os crentes deveriam demonstrar sua salvação através de suas atitudes. No quarto volume das Institutas, Calvino dedicou-se a organizar a vida prática da Igreja através da organização eclesiástica voltada ao presbitério e à santidade.

John Knox e o Presbiterianismo



                                             John Knox (*1513 - +24/11/1572)

John Knox nasceu em East Lothian na Escócia. Era filho de um fazendeiro de classe média. Depois da escola em Haddington, Knox frequentou a Universidade St. Andrews, onde foi aluno de John Mair, um dos líderes dos estudiosos escoceses daqueles dias que era um forte defensor das ideias dos concílios para a administração da Igreja.

Após formar-se, ele foi ordenado padre na Igreja Católica (1536) e por causa de estudo das leis se tornou um escrivão papal (1540). Ao mesmo tempo, enquanto trabalhava como tutor dos filhos de alguns proprietários de terra, teve contato com várias famílias protestantes.

Não sabemos nem como e nem quando Knox se tornou um protestante, pois nunca revelou nada sobre sua conversão, mas, ao que parece foi por volta de 1545.

Naqueles dias, um homem chamado George Wishart, um escocês que tinha passado algum tempo na Suíça e Inglaterra, retornou a sua terra natal onde começou a pregar o evangelho.

Em janeiro de 1545, depois de pregar em outros lugares, foi para East Lothian onde Knox trabalhou como seu guarda-costas. Apesar da aceitação de Wishart pelas famílias locais, ele foi preso pelo conde de Bothwell e levado para St. Andrews, onde, depois de ser julgado diante do Cardeal Beaton, foi queimado num poste como um herege em março de 1546.

Assim que começou a pregar a fé protestante na Escócia, Knox foi aprisionado e passou 19 meses como escravo de franceses. Após isto, conseguindo escapar pastoreou durante 5 anos uma Igreja na Inglaterra e depois ficou outros 5 anos na Suíça, onde muito aprendeu e cresceu com a teologia de Calvino e outros.

Após isto, em 1559, ele retornou para a Escócia, onde permaneceu até a morte pregando incansavelmente. A pregação de Knox logo via seu resultado, pois, em 1560, o parlamento escocês adotou uma profissão de fé calvinista e deliberou que o papa não tinha jurisdição sobre a escócia, além de proibir as missas.

Knox e seus apoiadores escreveram o “Livro da Disciplina” que era um verdadeiro manual de organização e prática da igreja, em moldes presbiterianos, além de dar incentivo à criação de escolas e universidade s públicas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

CRISTIANISMO (Parte 10 - Anglicanismo)

Não se sabe exatamente quando o cristianismo se estabeleceu nas Ilhas Britânicas, mas é certo que já existia antes do século III, possivelmente a partir de missionários fugidos das perseguições às quais os primeiros cristãos estavam sujeitos. Os primeiros registros da presença cristã naquela região foram feitos pelo historiador e escritor Tertuliano, no ano de 208 d.C. Mais tarde, no Concílio de Arles, realizado em 314 d.C. na França, compareceram três bispos de uma Igreja que existia na Inglaterra sem o conhecimento da Igreja Romana.

A primeira Igreja Cristã organizada nas Ilhas Britânicas é a Igreja Celta. O povo celta já habitava esta região antes mesmo da invasão anglo-saxônica. Esta Igreja, resistindo ao paganismo destes invasores, conseguiu manter uma Igreja Cristã independente, com organização monástica e tribal, sem nenhuma relação com a Igreja de Roma ou qualquer outra, embora mostrasse alguns hábitos e costumes orientais.

No ano de 595 d.C., o papa Gregório I, também conhecido como Gregório Magno, mandou um grupo de monges beneditinos, chefiado pelo monge Agostinho, prior do Convento de Santo André, na Sicília, para converter a Inglaterra ao catolicismo. Agostinho foi o primeiro arcebispo da Cantuária (em inglês, Canterbury), que é a Sé Primaz de referência para a atual Comunhão Anglicana, e passou a ser conhecido como Agostinho de Cantuária. Com o tempo, boa parte dos costumes da Igreja celta cedeu à forma latina do cristianismo implantada por Agostinho nas terras inglesas.

Origem do anglicanismo na Grã-Bretanha


Rei Henrique VIII (*28/6/1491-+28/1/1547)

Em 1534, a Igreja da Inglaterra se separou em definitivo da Igreja Católica Romana, por iniciativa do rei Henrique VIII, da Casa de Tudor. A princípio havia se mostrado um leal defensor do catolicismo, que fez queimar publicamente os escritos de Lutero. Mas por conta do conflito havido com o papa Clemente VII, relacionado com o pedido de anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, para se casar com Ana Bolena e ter descendentes homens, resolveu romper com Roma. A cisão se deu através do Ato de Supremacia, confiscando todas as propriedades que a Igreja Católica possuía na Inglaterra.

Após a morte de Henrique VIII, a Inglaterra se separou momentaneamente do cisma. Henrique VIII deixou um herdeiro homem, Edward VI, que era protestante. Este teve um reinado curto pela sua morte precoce com apenas 15 anos. Seguindo a linha de sucessão, sua irmã Maria I, filha do primeiro casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, assume o reinado após a morte de Edward VI. Católica fervorosa, ratificou o Ato de reconciliação da Inglaterra com Roma. Mas o seu reinado foi curto.


A emancipação da Igreja da Inglaterra da autoridade papal, através da iniciativa do rei Henrique VIII, não transformou a Inglaterra num país verdadeiramente protestante, pois a Igreja permaneceu católica quanto à doutrina. Somente no reinado de sua filha, Elisabeth I, a Igreja se firmara no caminho da via média entre catolicismo e protestantismo, característica que mantém até a presente época. Assim, não se pode, historicamente, atribuir a Henrique VIII o título de fundador da Igreja Anglicana.

Segmentos

A Igreja da Inglaterra compreende-se como "católica" e "reformada":

Católica (Alta Igreja) na medida em que se define como uma parte da Igreja Católica de Jesus Cristo, em perfeita e válida continuidade com a Igreja apostólica. Também se assemelha de Igreja Católica Romana em sua dogmas e ritos. Surgiu no século XIX, no Movimento de Oxford, já que a Igreja Anglicana era totalmente protestante.

Protestante (Baixa Igreja), na medida em que ela foi moldada por alguns dos princípios doutrinários e institucionais da Reforma Protestante do século XVI, nos princípios presbiterianos (ou calvinistas). O seu caráter mais reformado encontra-se na expressão dos Trinta e Nove Artigos de Religião, elaborado em 1563 como parte do estabelecimento da via média de religião sob a rainha Isabel I de Inglaterra. Os costumes e a liturgia da Igreja da Inglaterra, expresso no Livro de Oração Comum (em inglês, The Book of Common Prayer - BCP), são baseados em tradições da pré-Reforma, com influência dos princípios da Reforma litúrgica e doutrinária de inspiração protestante. Surgiu originalmente com a Igreja, sendo o segmento anglicano mais antigo.

Anglicanos independentes

Na segunda metade do século XIX, por divergências teológicas e pastorais no seio do anglicanismo, surgiram várias denominações anglicanas independentes, ou continuantes, principalmente na América do Norte, Austrália e em vários países em desenvolvimento. Concomitante a este fenômeno, houve em sentido contrário o aparecimento de "movimentos de convergência", nos quais protestantes ou católicos (ex: Velha Igreja Católica) aproximaram-se do anglicanismo e do catolicismo e buscaram estabelecer igrejas com doutrinas e práticas anglicanas. Exemplos disso são a Igreja Católica Apostólica Carismática da International Communion of the Charismatic Episcopal Church e a Comunhão Internacional das Igrejas Episcopais Evangélicas.

CRISTIANISMO (Parte 9 - Huldrych Zwingli)


Ulrich Zwingli (*1º/1/1484- +11/10/1531)

Zuínglio nasceu em Wildhaus, onde era o filho do prefeito da cidade. Estudou em Basel (Basileia), Berna, Viena, e depois em Basel de novo, onde se graduou como Bacharel em Artes em 1504 e como Mestre em Arte em 1506.

Em Basel, absorveu os ensinos de Thomas Wyttenbach sobre as Escrituras e sobre justificação e também se tornou amigo do humanista Glareanus e de Leo Jud. Foi ordenado em 1506 e trabalhou por dez anos na paróquia de Glarus, onde provou ser um bom pastor e um hábil pregador. Continuou seus estudos humanistas, mantendo a língua grega e tentando aprender sozinho o hebraico.

Em 1513 e 1515 serviu ao exército papal como capelão dos mercenários de Glarus. Suas experiências o levaram a se opor ao sistema mercenário; era especialmente contrário ao recrutamento francês. Devido ao tumulto resultante, aceitou um novo posto em Einsiedeln em 1516.

Zuínglio permanceu estudando o Novo Testamento, principalmente sob influência de Erasmo. Em primeiro de janeiro de 1919, quando se tornou pastor da maior paróquia de Zurique, anunciou que não seguiria os textos previstos no lecionário e que pregaria sobre o Evangelho de Mateus.

Isso foi visto pela Igreja como um ato de desobediência, mas devido ao início da propagação da Peste, a confusão foi acalmada. Um terço da população de Zurique foi morta por esta peste, e no final Zuínglio contraiu a doença, levando três meses para recuperar-se, fato que lhe fez experimentar uma relação de dependência para com Deus. Isso mudaria definitivamente sua vida.

Depois disso, Zuínglio continuou a pregar o que encontrava na Bíblia, apesar disso contradizer aquilo que os rituais oficiais da Igreja diziam. Em 1522, muitos párocos de Zuínglio, amparados pelas Escrituras, desafiaram as regras da Igreja comendo carne durante a quaresma, sendo apoiados por Zuínglio.

Após muitas discussões sobre o controverso pregador, em 1523 o conselho da cidade de Zurique realizou um debate público sobre assuntos de fé e por fim as ideias de Zuinglio saíram vitoriosas. Por fim o conselho emitiu um decreto permitindo a continuidade da pregação de Zuinglio.

Dentro de dois anos, muitas mudanças na Igreja de Zuínglio já eram percebidas: as Imagens foram retiradas, sacerdotes e freiras foram autorizados a casarem-se e a missa foi substituída por um culto com ênfase quase total na Palavra.

Zuínglio estava realizando a reforma, na Suíça, porém muitas foram as oposições encontradas, não só por parte da Igreja Católica, mas também de grupos reformadores mais radicais que queriam mudanças mais rápidas.

Numa tentativa de tornar a reforma coesa, em 1529 foram reunidos Zuinglio e Lutero em Marburgo. Das quinze questões discutidas, ambos concordaram em quatorze. O dilema ficou na questão da eucaristia, onde Lutero a via como o recebimento concreto do corpo de Cristo, enquanto Zuinglio com um recebimento espiritual.

Por fim, o movimento de Zuínglio espalhou-se pela maior parte da Suíça, também pela Alemanha e chegou a Genebra de língua francesa. Porém grande porção rural ainda era dominada pela Igreja Católica.

Devido a esta batalha por territórios de influência, iniciaram-se batalhas entre as tropas católicas e as de Zurique. Zuínglio somou-se a estas batalhas como soldado e acabou morrendo aos 11 de outubro de 1531 esquartejado na Batalha de Kappel. As batalhas, pois, permaneceramainda por cem anos.

CRISTIANISMO (Parte 8 - Luteranismo)


As 95 teses de Lutero em Wittenberg - Alemanha

O tema central da Reforma é a convicção de que o ser humano não pode nem tem necessidade de salvar-se por si mesmo. Antes, a salvação é dada em Cristo "unicamente pela graça" e aceita "somente pela fé". 

A redescoberta desse pensamento, biblicamente fundamentado, originou uma nova compreensão de todos os aspectos da vida cristã: da Igreja, do sacerdócio, dos sacramentos, da espiritualidade, da devoção, da conduta moral (ética), do mundo, incluindo aí a economia, a educação e a política. 

A ruptura gerada por esta redescoberta é o que chamamos de Reforma. Para entendermos a Reforma devemos conhecer melhor Martinho Lutero.


Martinho Lutero (*10/11/1483-+18/2/1541)

Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483 na cidade de Eisleben, na Alemanha. Na sua fase estudantil, foi enviado às escolas de latim de Magdeburg (1497) e Eisenach (1498-1501).

Ingressou na Universidade de Erfurt, onde obteve o grau de bacharel em artes (1502) e de mestre em artes (1505).

Seu pai fora um aldeão bem sucedido e sonhava em ter um filho advogado. Tendo, assim, iniciado seus estudos de direito, abruptamente, os interrompeu entrando no claustro dos eremitas agostinianos em Erfurt. 

O fato que o levou a isto é bastante estranho e gera controvérsias. A maioria dos historiadores diz que isto aconteceu devido a um susto que teve quando caminhava de Mansfeld para Erfurt. Em meio a uma tempestade, quando um companheiro de caminho, ao seu lado, foi atingido por um raio, e ele por um pouco não fora também.

Contam que foi derrubado por terra e em seu pavor, gritava "Ajuda-me Santa Ana! Eu serei um monge!". Preocupado com a salvação, o jovem Martinho Lutero decidiu tornar-se monge, a contragosto da família. Porém, foi ordenado padre em 1507. 

Lutero estava galgando os escalões da Igreja Romana e estava muito envolvido em seus aspectos intelectuais e funcionais. Por outro lado, também estava envolvido em conflitos internos pessoais quanto à salvação pessoal. 

Sua vida monástica e intelectual não forneciam resposta aos seus anseios interiores, às suas aflitivas indagações. Durante seus estudos, sempre lhe acompanhava a pergunta: "Como posso conseguir o amor e o perdão de Deus?"

Entre os anos de 1508 e 1512, lecionou filosofia na Universidade de Würtenberg, onde também ensinava Teologia. Em 1512 formou-se Doutor em Teologia. Fazia também conferências sobre Bíblia, especializando-se em Romanos, Gálatas e Hebreus. 

Foi durante este período que a teologia do apóstolo Paulo o influenciou, levando-o à percepção clara dos erros que a Igreja Romana cometia, à luz dos documentos fundamentais do cristianismo primitivo: os livros da Bíblia.

Assim, Lutero foi descobrindo ao longo dos seus estudos que para ganhar o perdão de Deus não era necessário castigar-se ou fazer boas obras compensatórias, mas somente ter fé em Deus. Com isso, ele não estava inventando uma doutrina, mas retomando pensamentos bíblicos importantes que estavam à margem da vida da igreja já há muito tempo e que naquele momento gerava aberrações teológicas, tais como as indulgências. 

Seus estudos paulinos, porém, deixaram-no mais agitado e inseguro, particularmente diante da afirmação "o justo viverá pela fé", de Romanos 1:17. Pois ali ele percebia que toda a Lei e o cumprimento das normas monásticas serviam tão-somente para condenar e humilhar o homem, e que destas coisas não se pode esperar qualquer ajuda no tocante à salvação da alma.

Tornou-se pároco da igreja de Wittenberg, passou a ser um pregador muito popular, proclamando os rudimentos desta fé que redescobrira. Além disso, em sua pregação ele opunha-se a venda de indulgências, fortemente comandada por João Tetzel.

Lutero decidiu tornar públicas essas ideias e em 31 de outubro de 1517, quando afixou na porta da Igreja de Wittenberg, suas teses acadêmicas, intituladas "Sobre o Poder das Indulgências". 

Seu argumento era de que as indulgências só faziam sentido como livramento das penas temporais impostas pelos padres aos fiéis. Mas Lutero opunha-se à ideia de que a compra das indulgências ou a obtenção das mesmas, de qualquer outra maneira, fosse capaz de impedir Deus de aplicar as punições temporais. 

Também dizia que elas nada têm a ver como os castigos do purgatório. Lutero afirmava que as penitências devem ser praticadas diariamente pelos cristãos, durante toda a vida, e não algo a ser posto em prática apenas ocasionalmente, por determinação sacerdotal. 

Este material resumia a aplicação prática do mais importante de sua (re)descoberta teológica até aquele momento.

Com isto Lutero pretendia abrir um debate para uma avaliação interna da Igreja, pois acreditava que a Igreja precisava ser renovada a partir do Evangelho de Jesus Cristo. Em pouco tempo toda a Alemanha tomou conhecimento do conteúdo dessas teses e elas espalharam-se também pelo resto da Europa.

Foi João Eck quem denunciou Lutero a Roma, e muito contribuiu para que o mesmo fosse condenado e excluído da Igreja Romana. Silvester Mazzolini, que era o padre confessor do papa, concordou com o parecer condenatório de Eck, dando apoio a este contra o monge agostiniano. 

Embora estivesse sendo pressionado de muitas formas - excomungado e cassado - para abandonar suas ideias e os seus escritos, Lutero manteve suas convicções. Suas ideias atingiram rapidamente o povo e essa divulgação foi facilitada pelo recém-inventado sistema de impressão de textos em série (imprensa).

Após isto Lutero escreveu "Resolutiones", em 1518, defendendo seus pontos de vista contra as indulgências, dirigindo a obra diretamente ao papa. Mas a obra não mudou o ponto de vista do papa a respeito dele. Mas muitas pessoas influentes se declararam favoráveis às opiniões de Martinho Lutero. 

Num debate teológico em Heidelberg, em 26 de abril de 1518, foi bem sucedido ao defender suas idéias.

Lutero foi convocado a comparecer em Roma, onde seria julgado como herege. Porém ele apelou para o príncipe Frederico, o Sábio, e seu julgamento foi realizado em território alemão em outubro de 1518, perante o Cardeal Cajetano. 

Diante deles Lutero recusou se retratar de suas ideias, tendo rejeitado a autoridade papal, abandonando assim a Igreja Romana. Sua saída da Igreja ficou confirmada num debate com João Eck, em julho de 1519. 

A partir de então Lutero declara que a Igreja Romana necessita de Reforma e publica vários escritos, dentre eles, a "Carta Aberta à Nobreza Cristã da Nação Alemã: Sobre a Reforma do Estado Cristão".

Assim, Lutero procurou o apoio de autoridades civis e começou a ensinar o sacerdócio universal dos crentes: Cristo como único Mediador entre Deus e os homens e a autoridade exclusiva das Escrituras, em oposição à autoridade de papas e concílios. 

Na obra "Sobre o Cativeiro Babilônico da Igreja", ele atacou o sacramentalismo da Igreja. Dizia que pelas Escrituras só podem ser distinguidos dois sacramentos: O Batismo e a Ceia do Senhor. Opunha-se à alegada repetida morte sacrificial de Cristo, que ocorreria a cada missa.

Em outro livro, "Sobre a Liberdade Cristã", ele apresentou um estudo sobre a ética cristã baseada no amor.

Em julho de 1520, a Igreja Romana expediu a bula Exsurge, Domine, que ameaçava Lutero de ser excomungado, a menos que se retratasse publicamente. 

Lutero queimou a bula em praça pública. Em resposta a isto, Carlos V, Imperador do Santo Império Romano, mandou queimar os livros de Lutero em praça pública.

Lutero se fez presente na Dieta de Worms, em abril de 1521. Recusando retratar-se, disse que a sua consciência estava presa à Palavra de Deus, pelo que a retratação não seria correta. 

Dizem alguns historiadores que ele concluiu sua defesa com as palavras: "Aqui estou; não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude. Amém". Como resposta, 25 de maio de 1521, formalizou-se a excomunhão de Martinho Lutero, e a Reforma também foi condenada.

A Reforma, porém, espalhou-se pela Europa. Em 1530, os líderes protestantes escreveram a "Confissão de Augsburgo", resumindo os elementos doutrinários fundamentais do movimento.
 
Por medidas de precaução, Lutero esteve recluso no castelo de Frederico, o Sábio, cerca de 10 meses; neste período deixou a barba e os cabelos crescerem e era chamado de Cavalheiro Jorge. Foi neste período que conseguiu tempo de trabalhar na tradução do Novo Testamento para a língua alemã. 

Esta tradução foi publicada em 1532. Com a ajuda de Melanchton e outros amigos, a Bíblia toda foi traduzida, e, então, foi publicada em 1532. Essa tradução tornou-se tão importante ao ponto de unificar os vários dialetos alemães, do que resultou o moderno alemão.

Outro fato digno de nota foi o casamento de Lutero, com Catarina de Bora, filha de família nobre e ex-freira, que havia aderido à Reforma junto de outras colegas de clausura que fugiram do convento. 

Tiveram seis filhos, dos quais alguns faleceram na infância. Adotou outros filhos. Este fato serviu para incentivar o casamento de padres e freiras que tinham preferido adotar a Reforma. Foi um rompimento definitivo com a Igreja Romana.

Em 1546, aos 62 anos de idade, Martinho Lutero faleceu. Porém, só em 1555, o Imperador reconheceu que havia duas diferentes confissões na Alemanha: a Católica e a Luterana.

Eis alguns pontos ético-morais mais importantes defendidos por Lutero:

1. Nem o papa nem o padre, tem o poder de remover os castigos temporais de um pecador;

2. A culpa pelo pecado não pode ser anulada por meio de indulgências;

3. Somente um autêntico arrependimento pode resolver a questão da culpa e do castigo, o que depende única e exclusivamente de Cristo;

4. Só há um Mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo; 

5. Não há autoridade especial no papa;

6. As decisões dos concílios não são infalíveis; 

7. A Bíblia é a única autoridade de fé e prática para o cristão;

8. A justificação é somente pela fé; 

9. A soberania de Deus é superior ao livre-arbítrio humano; 

10. Defendia a doutrina da consubstanciação em detrimento da transubstanciação;

11. Há apenas dois sacramentos: o batismo e a ceia do Senhor;

12. Opunha-se a veneração dos santos, ao uso de imagens nas Igrejas, às doutrinas da missa e das penitências e ao uso de relíquias;

13. Contrário ao celibato clerical;

14. Defendia a separação entre Igreja e Estado;

15. Ensinava a total depravação da natureza humana; 

16. Defendia o batismo infantil e a comunhão fechada; 

17. Defendia a educação dos fiéis em escolas paroquianas; 

18. Repudiava a hierarquia eclesiástica.