(Aguinaldo Rodrigues
Gomes1 e Sandra Nara da Silva Novais)
( Caderno Espaço Feminino - Uberlândia-MG -
v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 –
ISSN online 1981-3082)
Os relatos do século XVI e as
práticas sexuais indígenas muito embora a sexualidade indígena não tenha
despertado a atenção de grande parte dos historiadores é possível elencar uma
série de documentos que permitem a realização de estudos sobre o tema.
Nos relatos do século XVI, por
exemplo, encontramos várias referências ao deslumbramento dos colonizadores
europeus em relação à beleza das nativas. Parece
que nem mesmo Pero Vaz de Caminha furtou-se a fazer menção às peculiaridades
das mulheres indígenas. Assim o assinalou em sua carta ao rei de Portugal: “Suas
vergonhas, tão altas e tão coradinhas e tão limpas das cabeleiras que nós, de muito
bem as olharmos, não se envergonhavam.”
Adiante, diz o escrivão da armada:
“E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo
era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha tão graciosa que a muitas
mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, envergonhava, por não terem
as suas como ela.”.
No
que se refere aos indígenas brasileiros um dos primeiros a tratar desse tema
tão espinhoso para maioria dos pesquisadores foi Gilberto Freire em sua obra
Casa Grande e Senzala (1992).
Nela o autor enfatiza o encontro do
europeu com as indígenas pelo viés do intercurso sexual: O ambiente em que
começou a vida brasileira foi de quase intoxicação sexual.
O europeu saltava em terra
escorregando em índia nua; os próprios padres da Companhia precisavam descer
com cuidado, senão atolavam o pé em carne.
Muitos clérigos deixaram-se
contaminar pela devassidão. As mulheres eram as primeiras a se entregarem aos
brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham
deuses.
Davam-se ao europeu por um pente ou um caco de
espelho. Las mujeres andan desnudas y no
saben negar a ninguno mas aun ellas mismas importunan los hombres hallandose
con ellos en las redes; porque tienen por honra dormir con los Xianos",
escrevia o Padre Anchieta.
E isto de um Brasil já um tanto
policiado; e não o dos primeiros tempos, de solta libertinagem, sem batinas de
jesuítas para abafarem-lhe a espontaneidade.
Ainda que se faça necessário certo
cuidado em relação à afirmação feita por Freire podemos observar que este
descreve primeiro a atração dos europeus pelas mulheres indígenas e mostra que
essa atração era mutua, pois segundo ele, as indígenas entregavam-se a eles por
considerá-los deuses.
Da sensualidade das nativas não
escaparam nem mesmo os clérigos, muitos se entregaram aos seus desejos ora
abandonando a batina ora vivendo divididos entre o amor a Deus e os prazeres da
carne.
O autor dedica uma boa parte de seu
capítulo intitulado: O Indígena na formação da família brasileira: a condição
das mulheres indígenas em que a enalteceu como a base física e cultural da
família brasileira.
________________________________
Ø CORTESÃO,
Jaime. A carta de Pero Vaz de Caminha. Lisboa: Portugália, 1967, 221 p.147).
Disponível em: http://nonio.eses.pt/brasil/. Acesso em 03 de fevereiro de 2013.
Ø Freyre, Gilberto. “o indígena na formação da
família brasileira In: ___. Casa Grande & Senzala. 28 ed. Rio de janeiro:
Record, 1992, p. 92.
Ø Caderno
Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online
1981-3082.
A mulher gentia temos que
considerá-la não só a base física da família brasileira, aquela em que se
apoiou, robustecendo-se e multiplicando-se, a energia de reduzido número de
povoadores europeus, mas valioso elemento de cultura, pelo menos material, na
formação brasileira.
Por seu intermédio enriqueceu-se a
vida no Brasil, como adiante veremos, de uma série de alimentos ainda hoje em
uso, de drogas e remédios caseiros, de tradições ligadas ao desenvolvimento da
criança, de um conjunto de utensílios de cozinha, de processos de higiene
tropical - inclusive o banho frequente ou pelo menos diário, que tanto deve ter
escandalizado o europeu porcalhão do século XVI.
É interessante notar que Gilberto Freire, de
certa forma, foi o responsável por inaugurar os estudos de gênero no Brasil. Já
que em várias outras passagens o autor enaltece tanto a contribuição das
mulheres negras quanto das mulheres indígenas no processo de assentamento de
colonizadores e nativos nas terras brasileiras.
Citando Gabriel Soares e Jean Léry,
Freire afirma que as mulheres trabalham muito mais que os homens, evidenciando
a importância da mão de obra feminina no processo da colonização brasileira:
O cronista salienta como trabalho exclusivo
das mulheres as redes de fio de algodão e as "fitas como passamanes, e
algumas mais largas, com que enrolam os cabelos".
E pormenoriza: "As mulheres já
de idade teem cuidado de fazerem a farinha de que se mantêm, e de trazerem a
mandioca às costas para casa; e as que são muito velhas têm cuidado de fazerem
vasilhas de barro à mão como são os potes em que fazem os vinhos, e fazem
alguns tamanhos que levam tanto como uma pipa, em os quaes e em outros menores
fervem os vinhos que bebem: fazem mais estas velhas panellas, pucaros e
alguidares a seu uso, em que cozem a farinha, e outros em que a deitam e em que
comem, lavrados de tintas de cores; a qual louça cozem em uma cova que fazem no
chão, e põem a lenha por cima; e tem e creem estas índias que se cozer esta
louça outra pessoa que não seja a que a faz, que ha de arrebentar no fogo; as
quaes velhas ajudam também a fazer farinha que se faz no seu lanço”
Em outro trecho destaca: “o quão importante era o trabalho das mulheres
indígenas sejam elas jovens ou velhas no processo de plantio dos alimentos e na
educação das crianças: Eram ainda as mulheres que plantavam o mantimento e que
iam buscar a água à fonte; que preparavam a comida; que cuidavam dos meninos”.
Vê-se que não era pequena a importância da
mulher velha entre os indígenas; enorme a da mulher, em geral; e nessa
categoria o estudo comparado da arte e da indústria entre os primitivos
autoriza-nos a colocar o homem efeminado ou mesmo o invertido sexual, comum
entre várias tribos brasílicas.
_______________________________
Ø Caderno
Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online
1981-3082 .
_________________________________
Nessa mesma passagem observa-se que
o autor inclui entre os responsáveis, sobretudo pelo trabalho “domestico” ou
mesmo manual, a figura do efeminado, que participava normalmente das tarefas
femininas, e em algumas etnias se recolhiam junto com as mulheres nos períodos
de menstruação a exemplo dos índios kadiweu
que apresentaremos mais adiante.
Freire além de iniciar os estudos de gênero no
Brasil, realizou ainda algo mais importante, pois, embora não tivesse
conhecimento dessa categoria, acabou por utilizá-la, e de forma relacional, a
exemplo dos pesquisadores contemporâneos, incluindo ali também o homem e o
homossexual.
Ao se referir ao homossexual
utilizou-se das primeiras impressões dos cronistas do século XVI para revelar a
visão dos europeus sobre os indígenas efeminados: “Quanto aos pajés, é provável que fossem
daquele tipo de homens efeminados ou invertidos que a maior parte dos indígenas
da América antes respeitavam e temiam do que desprezavam ou abominavam.[...]
Uns, efeminados pela idade avançada, que tendem a masculinizar certas mulheres
e a efeminar certos homens; outros, talvez, por perversão congênita ou
adquirida”.
A verdade é que para as mãos de
indivíduos bissexuais ou bissexualizados pela idade resvalavam em geral os
poderes e funções de místicos, de curandeiros, pajés, conselheiros, entre
várias tribos americanas.
Freire destaca que entre os
indígenas brasileiros a bissexualidade poderia ser comum entre eles e chama a
atenção, ainda, para o fato de que os homossexuais, comumente não eram
hostilizados pelos membros do grupo, pelo contrário, eram tratados como
indivíduos virtuosos e extraordinários.
A própria couvade (o marido ficar de resguardo), complexo de cultura tão
característico das tribos brasílicas, talvez possa alguém arriscar-se a
interpretá-la pelo critério da bissexualidade.
Notados entre povos que em geral
respeitam, em vez de desprezar ou ridicularizar os efeminados, e enxergam neles
poderes ou virtudes extraordinárias, é possível que o costume da couvade se tenha originado desses
diferenciados sexuais: indivíduos de forte influência e sugestão mística sobre
a maioria.
Freire apresenta a ideia de alguns estudiosos
do período segunda a qual poderia ser a couvade
uma invenção dos indígenas efeminados já que eram responsáveis pelas práticas
míticas e rituais no interior desses grupos.
Tal ideia fica clara nessa passagem:
“Os efeminados, pelo seu prestígio através das práticas de magia sexual -
atividade dominada por eles entre várias tribos - teriam sido os iniciadores da
couvade - complexo de cultura em que
são tantas as evidências do mecanismo de compensação de que se serve o
invertido: o repouso, o resguardo, a dieta, a identificação do homem com a
mulher.
____________________________
Ø Caderno
Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online
1981-3082
_________________________________
Porque em geral eram os dois que
ficavam de resguardo e de dieta, e não o homem só, como de ordinário se pensa.
Novamente utilizando-se dos cronistas do Brasil colonial, Freire mostra que o
intercurso sexual entre indivíduos do mesmo sexo entre as sociedades indígenas
da América era algo comum.
Diversas dessas sociedades indígenas
tinham sociedades secretas destinadas a realização dos rituais de iniciação que
incluíam a relação sexual entre indivíduos do mesmo sexo.
Sendo essas mais comuns entre os do
sexo masculino, mas não sendo uma exclusividade deles. As sociedades secretas
de homens, possível expressão, ou antes, afirmação - na fase sexual e social de
cultura atravessada por muitas das tribos ameríndias ao verificar-se a
descoberta do continente - do prestígio do macho contra o da fêmea, do regime
patronímico contra o matronímico, talvez fossem melhor estímulo que a vida de
guerra à prática da pederastia.
O certo é que nos bailos - espécie de lojas de
maçonaria indígena só franqueadas aos homens depois de severas provas de
iniciação - pôde surpreender Von Den Steinen, entre os Bororo, os mancebos em
livre intercurso sexual uns com os outros; isto sem ar de pecado, mas
naturalmente.
Citado por Freire o viajante Gabriel Soares
descreve transtornado, em sua visão europeia, a prática do ato injustificado,
da homossexualidade entre os Tupinambás. Já no século XVI Gabriel Soares se
horrorizara de ver os Tupinambás "mui affeiçoados ao peccado nefando,
entre os quaes se não tem por affronta; e o que serve de macho, se tem por
valente, e contam esta bestialidade por proeza; e nas suas aldeias pelo certo
ha alguns que teem tenda publica a quantos os querem como mulheres
publicas". (...).
É impossível apurar até que ponto a homomixia
ocorresse na América primitiva por perversão congênita; a verdade é que entre
os ameríndios se praticava a pederastia sem ser por escassez ou privação de
mulher. Quando muito pela influência social da segregação ou do internato dos
mancebos nas casas secretas dos homens.
Entre os Tupinambás que ocupavam a maior parte
da costa brasileira, os índios efeminados eram chamados de tibira, e as mulheres com preferências sexuais por mulheres eram as
çacoaimbeguira.
Tais práticas sexuais assim foram
descritas no Tratado Descritivo do Brasil em 1587: “São os Tupinambás tão
luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam; os quais sendo de
muito pouca idade têm conta com mulheres, e bem mulheres; porque as velhas, já
desestimadas dos que são homens, granjeiam estes meninos, fazendo-lhes mimos e
regalos, e ensinam-lhes a fazer o que eles não sabem, e não os deixam de dia e
nem de noite.
Ø Caderno
Feminino - Uberlândia-MG - v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online 1981-3082.
____________________________________
E em conversação não sabem falar
senão nestas sujidades, que cometem cada hora; os quais são tão amigos da carne
que se não contentam, para seguirem seus apetites, com o membro genital como a
natureza formou; mas há muitos que lhe costumam pôr o pelo de um bicho tão
peçonhento, que lhe faz logo inchar, com o que têm grandes dores, mais de seis
meses, que se lhe vão gastando por espaço de tempo; com o que lhe faz o seu
cano tão disforme de grosso que os não podem as mulheres esperar, nem sofrer.
Darcy Ribeiro foi outro antropólogo
que se referiu aos cudinhos ou Kudinas
Kadiweus com os quais viveu á época de sua participação nas expedições de
Rodon Pacheco.
Segundo ele: Há documentos já do
século passado sobre a existência de homossexualismo entre tribos do Brasil.
Inclusive entre os kadivéu que eu
estudei. Eles chamam o homossexual de kudina.
O kudina é um homem mulher, ou um
homem que decidiu ser mulher.
Ele se veste como mulher, pinta o corpo como
uma mulher - e menstrua. Darcy Ribeiro
esclarece ainda que entre os índios, a mulher menstruada - flechada pela lua,
na linguagem deles - está em estado de impureza, pelo que é intocável e
perigosa. Então, para maior segurança dos homens, ela se retira para um
ranchinho isolado durante a menstruação.
O ranchinho vira um ninho de fofocas, e por
isso os kudinas resolvem menstruar
também e ficam uns dias lá, numa boa, fofocando o dia inteiro. É preciso
ressaltar que nos relatos de Darcy Ribeiro o kudina é uma figura absolutamente aceita, respeitada e integrada no
grupo.
Suas práticas sexuais significam
apenas uma das possibilidades de condução humana que esse grupo étnico
incorporou e até institucionalizou. O autor atribui a boa aceitação dos Kudinas à liberdade existente entre os Kadiweu para expressar o afeto que
sentem uns pelos outros sejam esses homens ou mulheres.
De acordo com ele, os índios se
mostram muito livres em suas manifestações de afeto. Faz ainda uma comparação
com nossas tradições de sociabilidade, e nesse sentido temos muito a aprender
com as sociedades indígenas: “Entre nós, um homem mal pode apertar a mão de
outro, mulher a gente deve abraçar de leve. Os índios vivem agarrados uns com
os outros. Curtem se tocar e conversar bem juntinho. Inclusive os homens”. Mal eu chegava numa aldeia, eles logo me
cercavam e vinham se encostando. Uma
amiga achou os índios uns desmunhecados porque não paravam de se encostar no
marido dela.
______________________________
Ø SOUZA,
Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil. (1587). Belo Horizonte:
Itatiaia, 2001, p. 308.
Ø RIBEIRO,
DARCY. Lições de humanismo dos índios do Brasil. Disponível em:
http://eumatil.vilabol.uol.com.br/licoes.htm, consultado em 10/02/2012. 18
Idem.
Ø Caderno
Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online
1981-3082.
___________________________________________
Em sua obra Diários
Índios: os Urubus-Kaapor (1996) Darcy Ribeiro se refere às duas expedições que
fez entre os anos de 1949 e 1951 onde percorreu o sertão maranhense com um
objetivo bem definido: resgatar, por intermédio dos herdeiros diretos dos
Tupinambás, parte da nossa identidade cultural.
Quando os encontrou
assim os definiu: “Todos os homens usam calções e dentro deles estão nus,
porque não põem mais o cordel que atava o prepúcio e metia o pau dentro do
corpo. Homens e mulheres falam inteligentemente o português dos caboclos
maranhense, mas entre eles só falam seu idioma tupi”.
No que se refere à
vida sexual desses povos, o antropólogo nos revela que: “O tratamento recíproco
de homens e mulheres é simétrico, embora sempre se portem com decoro nos
gestos. Há mulheres que gostam especialmente de falar de sexo, comentando quem
estaria trepando com quem, até as mulheres casadas. Não têm qualquer descrição nas
palavras, falam de todos os assuntos com naturalidade, comentando a vida sexual
de cada membro sem constrangimento (...)”.
Não parece haver
qualquer perversão generalizada, mesmo a homossexualidade, ao que me disseram,
é desconhecida. Chega a causar espanto quando é referida. Os casais são
afetuosos, andam quase sempre juntos e, não raro, se acariciando – no cafuné e
nas bolinas.
As conversas eróticas
são comuns, delas participam pessoas de todos os sexos e idades. Devem agir
como estimulantes, além de fumo, que os embriaga do modo como usam os charutos
– aspirando fortemente e retendo a fumaça no peito - ,e das bebidas fermentadas
que dão lugar a orgias.
O autor segue explicando que sobre a concepção
do ato sexual, se puro, natural, doloroso ou perigoso não conseguiu pelas
respostas obter muitas informações. No
entanto, afirmou que percebeu um esforço por parte dos homens em advertir as
mulheres que fazer sexo com os brancos pode ser algo perigoso. Como se observa
nessa passagem dos Diários índios: “Mas há um nítido esforço dos homens para
convencerem as mulheres de que as que têm relações com Karaíwas morrem em consequência disso.
Baseiam a suposição
no fato de algumas terem morrido no parto de filhos gerados por brancos e em
doenças venéreas apanhadas durante as andanças, que também têm causado dores e
mortes.
Porém, as mulheres
não parecem lá muito convencidas disso; contudo, devem temer. Os homens não têm
nenhuma inibição para as trepadas. Suas expectativas é de que se a mulher se
abrir, acolhedora, eles transarão.
__________________________________
Ø RIBEIRO,
Darcy. Diários Índios: os Urubus-Kaapor: Companhia das Letras, 1996. 20 Ibidem,
p. 163. 21 Ibidem, p. 164.
Ø Caderno
Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online
1981-3082.
___________________________________
O autor destaca ainda
os motivos que levam as mulheres indígenas a se encantarem pelos homens brancos
e negros: “O característico erótico atribuído ao branco ou ao preto é o
avantajamento da genitália, que eles creem ser tão exagerada no homem como na
mulher”.
Essa visão surge do fato de que
eles, não usando os amarrilhos que embutem o membro para dentro do corpo, os
mostram ao natural, fazendo parecer maiores. Alguns índios são referidos como
portadores de membros descomunais “como o dos brancos”.
São, por isso, desejados e temidos
pelas mulheres. Entre esse grupo indígena era comum que ocorressem relações
extraconjugais praticadas tanto pelos homens como pelas mulheres e, na maioria
das vezes, elas não eram motivos de vergonha entre eles.
Darcy Ribeiro nos
relata um interessante caso de relação extraconjugal: “A mulher de Corai-uhú, filho de Xapy, menina ainda,
que aliás é sua prima cruzada, seria uma devassa. Não quer ter relações com o
marido. Morde-o cada vez que tenta possuí-la. Faz um escândalo danado quando, à
noite, ele procura passar para a rede dela; já que, para a dele, a menina não
vai mesmo. Mas aí vem devassidão: tem relação é com Tomé, um rapaz da aldeia
vizinha, sempre que pode, e gosta muito. Não quer saber é do marido. (...)”.
Preveem que Tomé morrerá em breve, porque,
além dessa menina, ele tem relações com outras mulheres que citaram. E como uma
delas poderá engravidar, ele morrerá por não cumprir os preceitos da couvade.
Para Darcy Ribeiro, as dificuldades em falar e
saber um pouco mais sobre a vida sexual daqueles índios não estava nos índios,
mais sim, na equipe que com ele estava e suas atitudes etnocêntricas que riam e
debochavam do que viam, principalmente na presença das mulheres: “Comentam cada
atitude dos índios que lhes parece estranha. Ainda ontem à noite, divertiram-se
muito vendo dois rapazinhos índios que nos acompanhavam dormirem juntos na
rede, meio abraçados. Para eles, homens só podem dormir de pés contra a cabeça
um do outro e, mesmo assim, fazem coisa insuportável a seus olhos maledicentes”
Durante o tempo em que conviveu com os Kaapor, Darcy Ribeiro foi capaz de
identificar práticas sexuais não aprovadas pelo grupo e que podem indicar
relações sexuais entre mulheres.
Falou-se de casais jovens cujas
mulheres são comentadas por todos. São dois irmãos, filhos de Xapy, casados com
duas irmãs; os quatro andam sempre juntos, principalmente as duas meninas, que
são inseparáveis e parecem divertir-se muito uma com a outra, pois não param de
comer, abraçar-se, rir e mais rir.
________________________________
Caderno Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v.
26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online 1981-3082.
___________________________________
A respeito das
práticas sexuais entre mulheres indígenas, a historiadora Tânia Navarro Swain,
aponta cronistas do Brasil colonial que descreveram tal prática. No XVI o
cronista Gandavo, aborda o homossexualismo entre mulheres afirmando que: “Algumas
Indias ha que tambem entre elles determinam de ser castas, as quaes nam
conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consentirão ainda que por isso
as matem. Estas deixam todo o exercicio de mulheres e imitam os homens e seguem
seus officios, como senam fossem femeas. Trazem os cabellos cortados da mesma
maneira que os machos, e vão à guerra com seus arcos e flechas, e à caça
perseverando sempre na companhia dos homens, e cada uma tem mulher que a serve,
com quem diz que he casada, e assi se comunicam e conversam como marido e
mulher”.
Em outro trecho
Swain cita Gabriel Soares de Souza: “[...] são muito temidos pelos amoipiras, com os quais tem guerra por
uma banda e pela outra, com umas mulheres que dizem ter uma só teta, que
pelejam com arco e flecha, e se governam e regem sem maridos, como se diz das
amazonas; dos quais não podemos alcançar mais informações, nem da vida e
costumes destas mulheres”.
E de Thévet, narrando o encontro dos espanhóis
com tais guerreiras, destacou: “[...] nossos peregrinos não haviam parado senão
o necessário para se repousar e buscar alguns víveres, porque estas mulheres
tão admiradas de vê-los com aquele equipamento que lhes era tão estranho
reuniram-se logo de 10 a 12 mil em menos de três horas, meninas e mulheres
nuas, mas com arco e flecha na mão, gritando como se tivessem visto seus
próprios inimigos [...] ao que não quiseram resistir e em seguida se retiraram
com sua honra preservada”.
A ação da Igreja e interdição das práticas
sexuais na colônia, como se observa, fez com que a ênfase fosse dada aos
aspectos econômicos e políticos nos estudos históricos, acabando por criar um
silêncio na historiografia em relação ao tema da sexualidade dos nativos no
processo de formação da identidade brasileira.
Esse fato criou, ainda, uma falsa ideia sobre
as práticas eróticas das sociedades indígenas que ocultou uma série hábitos
sexuais comuns entre as populações das Américas espanhola e portuguesa.
__________________________________
Ø GANDAVO,
Pero Magalhães. História da Província de Santa Cruz. Tratado da terra do
Brasil. São Paulo: Obelisco, 1964, p. 141. Apud: SOUZA, Gabriel Soares. Op.
cit., p. 337.
Ø THEVET
André. Les singularités de la France Antartique- le Brésil des cannibales au
XVIème siècle. Paris: La Découverte, 1983, p. 167/168. Apud SWAIN, Tânia
Navarro. Amazonas brasileiras? Os discursos do possível e do impossível.
Disponível em www.intervencoesfeministas.mpbnet.com.br/.../taniamazonasbahia.pdf,
consultado em 17/02/2013.
Ø Caderno Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v.
26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online 1981-3082.
___________________________________
A vertente
jesuítica/positivista da história indígena, além de tratar o processo de
colonização numa visão binária de vencedores e vencidos, do ponto de vista do
gênero, transmitiu uma errônea noção de heteronormatividade entre as etnias
indígenas.
Os jesuítas, aliados do Estado, tiveram como
principal a função de domesticar os corpos e apetites sexuais dos ameríndios,
como aponta Vainfas: “Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos jesuítas no
século XVI foi, sem duvida, a relação que mantinha o índio com o próprio corpo:
o canibalismo, a luxúria e a nudez”.
Os dois últimos
traços apareceram certamente ligados nas queixas e vitupérios inacianos contra
os costumes do que chamavam gentio,
havendo mesmo uma tendência a considerar-se a nudez de índios e índias a
principal causa de tantos pecados que grassavam na colônia nascente.
Pe. Manoel da Nóbrega
tudo fez para vesti-los tão logo chegou à Bahia, desde dar-lhes a roupa
sobressalente dos padres até obrigá-los a fiar seus próprios vestidos de
algodão. Julgava indispensável cobrir o corpo dos nativos, inconsolável por
vê-los nus nos ofícios divinos e revoltado com a excitação que as índias
causavam nos portugueses.
Vainfas esclarece que
os membros do clero em terras americanas tentaram a todo custo instituir aqui
os preceitos e normas da cristandade romana no que se refere à moral sexual por
meio de instituições como o casamento.
É certo que, de todo modo,
os agentes eclesiásticos da colonização tentaram, por todos os meios a seu
alcance, transformar o Brasil numa parte legítima da cristandade romana, o que
implicava, entre outras coisas, difundir o modelo matrimonial cristão: uniões
sacramentadas, família conjugal, continência e austeridade.
Tentaram-no com os
índios, depois com os africanos; tentaram-no desde sempre com os reinóis que
aqui chegavam em busca de aventuras. Viram-se frustrados, no entanto, pelos
interesses mercantis da colonização, pelo escravismo, pelo hibridismo cultural
que a colônia brasílica possuía por vocação.
Embora tenha ocorrido por parte dos
colonizadores e, sobretudo, da Igreja a coibição de tais práticas sexuais na
colônia, a situação se transformaria substancialmente no final do século XVI
com a chegada do Santo Oficio que considerou seus atos abomináveis: “Por crime
de sodomia aparecem, no fim do século XVI, perante o visitador do Santo Ofício,
vários indígenas e mamelucos: homens ainda mal cristianizados, católicos ainda meio
crus”.
A Igreja fulminou
neles como pecado dos mais profundos – um dos quatro clamanta peccata (pecados que clamam aos céus: pecados abomináveis)
da Teologia da Idade Média – o que para
a moral sexual desses primitivos – dos selvagens que o Padre Cardim, ouvindo em
confissão achara tão cândidos – seria quando muito um pecadilho.
____________________________________
Ø VAINFAS,
Ronaldo. Moralidades Brasílicas: deleites sexuais e linguagem erótica na
sociedade escravista. In: MELLO E SOUZA, Laura de (org.). História da Vida
Privada no Brasil - Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. São Paulo:
Companhia das Letras, 1999, p. 262.
Ø Caderno
Espaço Feminino - Uberlândia-MG - v. 26, n. 2 - Jul/Dez. 2013 – ISSN online
1981-3082.
___________________________________
Parece, entretanto,
que a mentalidade portuguesa cedo identificou os indígenas com a prática da
pederastia; prática para os cristãos tão abominável. A denominação de bugres dada pelos portugueses aos
indígenas do Brasil, em geral, e a uma tribo de São Paulo, em particular,
talvez exprimisse o horror teológico de cristãos mal saídos da Idade Média ao
pecado nefando, por eles associado sempre ao grande, ao máximo, de
incredulidade ou heresia.
O processo de conversão em terras americanas
enfrentou vários percalços e, não raramente, os catequizadores foram
estimulados a utilizar a violência na conversão do gentio. “Parece-nos agora
que estão as portas abertas nesta capitania para a conversão dos gentios, se
Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo,
porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de
ferro, na qual mais do que nenhuma outra é necessário que se cumpra o compelle (forçar) e o intrare (entrar)”.
A partir do discurso
de Pe. Anchieta, percebemos o esforço dos jesuítas em transformar as práticas
culturais sexuais entre os povos gentílicos. A partir da chegada dos religiosos,
inicia-se a coibição à nudez e aos atos considerados libidinosos tais como a
poligamia e a sodomia. Assim, observa-se que as ideologias da cristandade
branca europeia, com o auxílio da cruz e da espada se impuseram sobre os
ameríndios, penetrando, inclusive, no campo da sexualidade, instituindo entre
eles a moral e os costumes dos brancos colonizadores no âmbito das práticas
sexuais.
Buscaram a todo custo
introduzir a tradição da monogamia e a heteronormatividade como padrão. No
entanto, embora, tal empreitada parecesse ter sido totalmente eficaz no interior
dessas sociedades indígenas, elas continuavam sub-repticiamente presentes nas
ações destes povos.
Pois como advertiu
Michel Foucault: “toda norma, aparentemente hegemônica ao longo da história foi
e será, ainda hoje, minada pelos micropoderes e micro resistências das práticas
cotidianas”.