Mostrando postagens com marcador Rituais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rituais. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de julho de 2016

SANTO DAIME



O que é o Santo Daime?


1. Seita fundada pelo seringueiro maranhense Raimundo Irineu Serra, no Acre, e codificada por um seu seguidor, o seringueiro Sebastião Mota de Melo, dito Padrinho Sebastião, c1960, em Rio Branco AC, a qual sincretiza elementos cristãos, ameríndios e exóticos.

2. Utilizam bebida alucinógena (tb. chamada ayahuasca) dada de beber aos circunstantes durante suas cerimônias religiosas.

   


                        Os elementos sintetizadores do Sincretismo Santo Daime

Histórico

Raimundo Irineu Serra nasceu em São Vicente Ferrer, no Estado do Maranhão, em 1892. No final da primeira década do século, embarcou para o então Território do Acre para trabalhar nos seringais, onde se estabeleceu próximo à cidade de Brasileia, na fronteira com a Bolívia.

Foi ali que Raimundo Irineu Serra, teve sua iniciação com a ayahuasca , recebendo a missão de uma entidade feminina associada com a Virgem Maria (Virgem da Conceição ou Rainha da Floresta) de expandir a doutrina e utilizar todo o conhecimento nela inserida para a cura.

Mestre Irineu não inventou a ayahuasca, foi apenas responsável pela cristianização do seu uso, rebatizando a bebida a partir do rogativo "Dai-me Amor", "Dai-me Firmeza". A nova seita religiosa mesclou elementos culturais diversos como as tradições caboclas e xamânicas, o catolicismo popular, o esoterismo e tradições afro-brasileiras.

Na década de 1930, ele inicia seus trabalhos espirituais com um pequeno grupo de seguidores nos arredores de Rio Branco e, com o passar dos anos, viu esse grupo aumentar em tamanho e importância no cenário acreano. Raimundo Irineu Serra faleceu em 6 de julho de 1971.

Fugindo dos princípios da doutrina, e desrespeitando as advertências do Mestre antes do falecimento, iniciou-se um movimento de expansão com a criação de novos centros como o CEFLURIS liderada por Sebastião Mota de Melo.

Em 2006, estimava-se em aproximadamente 10.000 os seguidores dessa doutrina no Brasil e no mundo. Há centros legalmente instituídos em quase todos os estados brasileiros e em países como Espanha e Países Baixos, além de grupos que celebram os cultos em países como Estados Unidos, Canadá, Japão, Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela e Portugal.

A doutrina ficou então dividida em duas vertentes principais:

O Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU) - Alto Santo - dirigido pela viúva do mestre, Peregrina Gomes Serra e o CEFLURIS, fundado pelo Sebastião Mota de Melo, natural de Eirunepé, Amazonas.

O Centro Eclético de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra (CEFLURIS) foi registrado em 1974, com sede na cidade do Rio Branco, como um centro espírita estruturado sob a forma de sociedade religiosa sem fins lucrativos, responsável pela organização da Doutrina e pela feitio e distribuição da bebida sacramental utilizada nos rituais.

Inúmeros centros independentes ou não diretamente ligados ao CICLU ou ao CEFLURIS surgiram após a expansão para o resto do país. Um dos mais recentes desdobramentos desta expansão é o surgimento de centros independentes, que promovem sincretismos com a Umbanda, o Hinduísmo.

Um centro considerado expansionista, mas que ritualísticamente segue os princípios do Alto Santo é o Centro Eclético Flor do Lótus Iluminado - CEFLI, com sede em Capixaba, Acre, e dirigido por Luiz Mendes do Nascimento, mas com seguidores em vários locais do mundo.

O uso ritual de substâncias psicoativas como a ayahuasca vem sendo discutido em vários países. No Brasil, o CONAD (Conselho Nacional Antidrogas) do Brasil, retirou a ayahuasca da lista de drogas alucinógenas conforme portaria publicada no Diário Oficial da União em 10 de novembro de 2004, permitindo o uso ritual.

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, encaminhou em 2008 ao IPHAN,8 um processo para transformar o uso do chá de ayahuasca, em patrimônio imaterial da cultura brasileira.

Doutrina da floresta

           
Chá de Ayahuasca: alucinógeno permitido

Portanto, o Santo Daime é uma manifestação religiosa surgida na região amazônica nas primeiras décadas do século XX. Consiste em uma doutrina espiritualista que tem como base o uso sacramental de uma bebida enteógena, a ayahuasca.

A doutrina não possui proselitismo, sendo a prática espiritual essencialmente individual, sendo o autoconhecimento e a internalização os meios de obter sabedoria.

Segundo seus adeptos, a doutrina do Santo Daime é uma missão espiritual, que encaminha os seus praticantes ao perdão e a regeneração do seu ser.

Isto acontece porque o daimista, ao participar dos cultos e ingerir o Santo Daime inicia um processo de autoconhecimento, que visa a corrigir os defeitos e melhorar-se sempre, aprimorando-se como ser humano.

Nos rituais sempre há uma forte presença musical. São sempre cantados hinos religiosos e são usados maracás, um instrumento indígena ancestral, na maioria dos locais de culto, além de violas, flautas, bongôs e atabaques.

Surgiu no estado brasileiro do Acre, no início do século XX, tendo como fundador o lavrador e descendente de escravos Raimundo Irineu Serra, que passou a ser chamado dentro da doutrina e por todos que o conheciam como Mestre Irineu.

Após conhecer a bebida sacramental, chamada de ayahuasca pelos nativos da região Amazônica, Irineu Serra teve uma visão de características marianas, em que um ser espiritual superior lhe entrega a missão do Santo Daime.

Um caso de agressão

Em 2010, Glauco Villas Boas (1957-2010), cartunista por profissão e um dos responsáveis pela distribuição do chá em oficio religioso na cidade de São Paulo, foi assassinado por uma pessoa que frequentou a doutrina.

Outras fontes declaram que o jovem já sofria de problemas psiquiátricos antes de frequentar as sessões com o Santo Daime e que estaria passando por uma crise.

O agressor, por razões psiquiátricas de sua inimputabilidade (diagnóstico de esquizofrenia) não permaneceu preso e inclusive posteriormente recebeu autorização para tratamento domiciliar.

Recentemente, em setembro de 2014, tal agressor foi novamente preso sob suspeita de latrocínio (roubo seguido de morte), estando seu envolvimento ainda em investigação.


Estrela utilizada pelos fardados
.

Cipó Jagube

Legislação para uso do chá

Em janeiro de 2010, o governo brasileiro formalizou legalmente o uso religioso do chá ayahuasca, vetando o comércio e propagandas do mesmo, que só poderá ser utilizado com fins religiosos e não lucrativos, com a criação de um cadastro facultativo para as entidades que o utilizam.


A bebida chegou a ser proibida no país em 1985, sendo liberada dois anos depois, e ocorreu uma nova tentativa de proibição nos anos 1990. Atualmente não há impedimento para o uso do chá em cerimônias religiosas, porém não existiam orientações para o seu uso em conformidade com o direito.

(Fonte: Wikipédia)

O ATUAL VALE DO AMANHECER

A primeira comunidade funcionou na Serra do Ouro, próximo da cidade de Alexânia, Goiás. De lá se mudou para Taguatinga, cidade satélite de Brasília, e, em 1969, foi instalada no atual local, que passou a se chamar “Vale do Amanhecer”, na zona rural da cidade satélite de Planaltina.

O Vale ocupa uma área pertencente ao Governo do Distrito Federal, nela residindo cerca de 500 pessoas, em sua maioria menores abandonados que foram abrigados por Tia Neiva.


Tia Neiva: fundadora do Vale do Amanhecer (Neiva Chaves Zelaya, Tia Neiva, Mãe Neiva, Nossa Mãe, Agla Koatay 108)

Para esse fim, foi criada uma entidade jurídica chamada “Lar das Crianças de Matildes”, que garante a legalidade desse tipo de trabalho. Dentre os residentes estão os dirigentes que cercam Tia Neiva, algumas famílias de médiuns, os que participam da manutenção, do atendimento de emergências no Templo e ocasionais abrigados para tratamento de alcoolismo.

O ponto focal da comunidade é o Templo do Amanhecer, construído em pedra, no formato de uma elipse, com uma área coberta de 2.400 metros quadrados. Distante cerca de 300 metros, existe um conjunto iniciático, construído a céu aberto, chamado Solar dos Médiuns ou Estrela Candente.

Nele existem cachoeiras artificiais, um espelho d’água em forma de uma estrela, com raio de 79 metros, lagos, escadarias de pedra e cabanas de palha. O Templo do Amanhecer destina-se ao atendimento do público.

O trabalho abre, todos os dias, às 10 horas da manhã, e se prolonga até às 10 da noite, com plantões chamados de Retiros. O Solar dos Médiuns também funciona todos os dias, com início às 12 horas e 30 minutos. Nele, porém, os rituais se destinam à manipulação das energias, havendo atendimento de público apenas em alguns casos especiais.
  
O Vale dispõe de água encanada, eletricidade e uma linha de ônibus que o liga a Planaltina, distante 6 km. Possui uma escola primária, dirigida pela Secretaria de Educação do GDF, atualmente com 200 alunos, duas lanchonetes, oficina mecânica, salão de costura, pomar, lavoura e uma livraria especializada em obras religiosas e espiritualistas.
As atividades diárias do Vale são muito intensas, o dia de trabalho se encerrando altas horas da noite. Para o visitante que vem pela primeira vez, o aspecto é de bucolismo e tranquilidade rural. Essa impressão, entretanto, se desfaz rapidamente, quando se percebe a intensa atividade desenvolvida para amainar o sofrimento dos que, diariamente, procuram o Vale.

Todos os dias, às 10 horas da manhã, uma sirene toca três vezes, e é aberto o Retiro dos Médiuns, obedecendo uma tradição que é mantida desde 1959. Os médiuns que participam nesse dia permanecem em plantão até às 10 horas da noite. Cada dia, entretanto, é diferente dos outros, sempre havendo uma programação intensa de instrução e desenvolvimento.

Certos dias, principalmente nos fins de semana, vários acontecimentos ritualísticos são executados simultaneamente. Tanto pode acontecer um casamento solene, uma cerimônia de Iniciação, uma festa de aniversário como um velório iniciático por algum médium que tenha desencarnado.

Isso, entretanto, sucede sem interrupção do atendimento dos clientes, do andamento das construções, do trabalho das oficinas ou do lazer dos abrigados. É comum a gente ver uma cerimônia iniciática, feita com toda a solenidade no Templo, e, ao passar pela Casa Grande, onde funciona o Lar das Crianças de Matildes, deparar com um baile de rapazes e moças animado por um conjunto local de roque...

No Vale só existem duas classes de pessoas: Médiuns e Clientes, sendo essa a maneira mais simples de conceituar as pessoas sem incorrer no perigo da descriminação. Médium é o antigo cliente que, devido a seus compromissos transcendentais, sente necessidade de participar da Corrente, ou seja, trabalhar mediunicamente.

Na verdade, eles (os médiuns) representam, apenas, a média de ½% dos frequentadores, ou seja, dentre cada grupo de 200 pessoas que procuram o Vale, apenas uma tem necessidade de desenvolver sua mediunidade.

Depois que o último cliente se retira, fato que raramente acontece antes de meia-noite, surge sempre alguma atividade instrutiva, uma comunicação dos planos espirituais ou uma discussão doutrinária em torno de Tia Neiva. Com exceção dos Retiros e das Escaladas na Estrela, cujos horários são rígidos, não existem horas marcadas para as coisas que acontecem.

As atividades flutuam ao sabor dos acontecimentos. O dia inteiro chegam pessoas em busca de auxílio, cuja natureza varia ao infinito. Os dias típicos que mais caracterizam a vida no Vale são os chamados dias de Trabalho Oficial, atualmente às quartas, sábados e domingos. Nesses dias, chegam a trafegar no Vale entre 3 e 4 mil pessoas. O Trabalho Oficial começa à 10 horas, com a abertura da Corrente.

A partir daí, os médiuns vão se colocando nos seus postos de serviço, na media em que vão se mediunizando, ou seja, que completam os seus rituais e se sentem prontos para o atendimento. As portas do Templo permanecem abertas e os clientes vão sendo acomodados nos bancos de pedra, que correm ao longo do Templo, no lado esquerdo de quem entra.

O primeiro contato é com os médiuns da Falange dos Recepcionistas. Eles, discretamente, vão acomodando os clientes e movimentando as filas. Os pacientes sentam e levantam, e vão se aproximando dos Tronos, onde é feito o atendimento individual. Os Tronos são pequenas mesas, com apenas um lado disponível, onde se sentam o Apará (médium de incorporação) e o cliente.

Por trás do Apará, permanece de pé o Doutrinador. Este, cuja mediunização torna seus sentidos mais alertas (ao contrário do Apará, que fica semiconsciente), é o responsável por tudo que decorrer no atendimento. Ele acompanha o trabalho do Preto Velho ou do Caboclo, esclarece o cliente, doutrina os sofredores que o Preto Velho puxa do cliente e garante, ao máximo possível, a satisfação do atendido.

O Apará incorporado permanece com os olhos fechados e apenas entra em contato com o cliente segurando levemente suas mãos ou tocando, na sua cabeça, com a ponta dos dedos. Conforme o médium ou a entidade-guia, a linguagem é pouco inteligível pelo paciente.

Isso, entretanto, não é de muita importância, uma vez que a vocalização é apenas a maneira da entidade entrar em sintonia com o paciente. Quando se torna necessário um conselho ou indicação, o Doutrinador serve de intérprete. Na verdade, o importante não é o que a entidade fala, mas, sim, o que ela faz durante o atendimento.

É a manipulação de energias que irá resolver os problemas do consulente, podendo suceder que nem ele saiba, às vezes, quais são eles. Por isso, a comunicação é secundária, principalmente pelos perigos que encerra, devido às possíveis interpretações errôneas. O freqüentador do Vale do Amanhecer acaba por se habituar a avaliar a autenticidade do trabalho pelo resultado, fato esse de que só ele pode ser o juiz. Se ele chega tenso e cheio de cargas negativas, o Preto Velho as atrai para o Apará.

O médium recebe essas cargas e, devido à natureza dessas energias e sua localização no seu plexo solar, ele se contrai. O quadro dessa incorporação é o do médium com o rosto contraído, as mãos crispadas e, às vezes, falando em tom agressivo. Isso tanto pode significar que ele está recebendo a carga magnética do cliente como algum espírito sofredor, um desencarnado ou um obsessor.

Qualquer que seja a situação, o Doutrinador faz sua doutrina e, mediante uma chave iniciática, faz a entrega a outro plano, outra dimensão. O médium, então, volta para sua incorporação suave do Preto Velho ou à expressão do Caboclo.

Conseguido o reequilíbrio do tônus do paciente, a entidade sugere seu encaminhamento para outros trabalhos no Templo, dá-lhe algum conselho ou palavra de encorajamento, sugere sua volta ou lhe delineia algumas sugestões para equilibrar sua vida. Nunca, porém, interfere no seu livre arbítrio ou toma alguma decisão por ele.

Após esse atendimento, o cliente tem várias alternativas: vai para a Sala de Cura se tiver algum distúrbio físico, para a Indução se seu problema for de ordem econômica, puramente de situação material, ou apenas para a Linha de Passes se não tiver problemas dessa natureza.

A “cura”, em termos da Doutrina do Amanhecer, não envolve diagnóstico ou receita de remédios. Nada ali é feito que possa ser resolvido pelo médico terreno. Em todos os casos sempre se sugere que o paciente procure o médico, ou continue com o tratamento que porventura esteja fazendo.

Nossa cura é puramente espiritual, na área invisível do paciente, que é inacessível ao médico físico. Se o cliente apresenta sintomas de mediunidade excessiva, é aconselhado o seu desenvolvimento, porém sempre é chamada sua atenção que isso tanto pode ser feito aqui como em qualquer outro lugar de sua preferência.

Alguns clientes chegam pensando que todo atendimento é feito pessoalmente por Tia Neiva, e fazem questão de enfrentar o difícil problema da espera que isso suscita. Nos dias de Trabalho Oficial, o Templo atende entre 3 e 5 mil pessoas e, é lógico, apenas uma pequena parcela consegue falar pessoalmente com a Clarividente.

De modo geral, o atendimento se caracteriza pela descontração e informalidade. O cliente entra e sai à vontade, ninguém lhe pede coisa alguma e ele só sai de sua incógnita se assim o desejar. Só tem que declinar seu nome e sua idade na hora de ser atendido pela entidade incorporada no médium.

Tanto os médiuns como os dirigentes preferem ignorar o problema pessoal de cada um, e só se interessam pela natureza do problema. Geralmente, quando procurado, o recepcionista pergunta ao cliente se o problema dele é de saúde, da vida material ou de ordem familiar, para poder encaminhá-lo ao setor adequado.

Na verdade, a técnica empregada no atendimento dispensa a confidência da pessoa. O trabalho se passa numa outra dimensão, que é invisível aos sentidos até mesmo dos médiuns. Mesmo a conversa das entidades, incorporadas no médium, escapa, em grande parte, aos seus ouvidos ou à sua percepção, embora ele não esteja realmente inconsciente. O diálogo é necessário para manter a sintonia entre o cliente e a entidade.

Enquanto o Preto Velho conversa, ele está, na verdade, manipulando energias e resolvendo problemas da pessoa que, às vezes, nem ela suspeita que tem. Em alguns segundos do relógio, a entidade percorre os ambientes onde a pessoa vive, verifica problemas de suas outras encarnações, atende a pessoas que lhe são queridas, não importa a distância física onde estiverem, e faz até mesmo sua caridade para os inimigos do atendido.

O ponto alto desse trabalho é que o cliente não assume compromisso algum, nem mesmo de ser um crente ou adepto. A confiança surge depois, com os resultados obtidos e é por isso que os clientes do Vale, em sua maioria, acabam por voltar outras vezes e se tornam amigos. Os clientes do Vale são de todas as classes sociais.

Alguns vêm apenas para visitar ou por curiosidade. Outros, gostam de pesquisar. Porém, muitos, talvez a maioria, vêm em busca de algo que falta em suas vidas. Todos se sentem à vontade, uma vez que nada lhes é solicitado, pois não têm obrigação alguma.

Os médiuns, esses sim, têm sempre a obrigação de fazerem tudo que for possível pelos que procuram o Templo. Não se concebe uma pessoa sair do Vale sem ter sido atendida ou sair insatisfeita. É lógico que o Vale não faz milagres, nem resolve todos os problemas das pessoas, mas sempre abre uma esperança, alivia uma dor e amplia as perspectivas daqueles que o procuram.

RITUAIS DO CANDOMBLÉ


(Do livro “O Essencial do Candomblé”, de Ademir Barbosa Júnior)

A fim de apresentar algumas das principais cerimônias do múltiplo e diversificado universo do Candomblé, foram selecionados alguns rituais da Nação Ketu, os quais, de uma maneira ou de outra, também aparecem na liturgia das outras Nações.

Para diversos rituais do Candomblé, inclusive os xirês (cantos e danças aos Orixás), pede-se a abstenção de álcool e que se mantenha o “corpo limpo” (expressão utilizada em muitos terreiros e que representa se abstenção de relações sexuais).

No caso da abstenção de álcool, bem como de alimentos específicos, quando assim solicitada, o objetivo é manter a consciência desperta e não permitir abrir brechas para espíritos e energias com vibrações deletérias.

No tocante à abstenção sexual, a expressão “corpo limpo” não significa que o sexo seja algo sujo ou pecaminoso: em toda e qualquer relação, mesmo a mais saudável, existe uma troca energética; o objetivo da abstenção, portanto, é que o médium mantenha concentrada a própria energia e não se deixe envolver, ao menos momentaneamente, pela energia de outra pessoa, em troca íntima.

O período dessas abstenções varia de casa para casa, mas geralmente é de um dia (pode ser da meia-noite do dia do trabalho até a “outra” meia-noite, ou do meio-dia do dia anterior ao trabalho até as 12h do dia seguinte ao trabalho etc.).

Há períodos maiores de abstenções chamados de preceitos ou resguardos. 

Ipadê:

Ipadê é o ritual que antecede todos os demais, no qual o Orixá Exu é firmado como guardião do Axé, a fim de proteger a casa e as pessoas. Para tanto, são utilizadas comidas típicas de Exu, como o padê (farofa especialmente preparada), vela e água.           Após cantos e danças, a quartinha com água, a vela e o padê são levados para fora do barracão.  Os demais rituais têm prosseguimento.

Embora o padê se dirija antes de tudo a Exu, comporta também obrigatoriamen- te umas cantigas aos Eguns (antepassados), alguns dentre eles sendo mesmo designados por seus títulos sacerdotais. 
O objetivo principal é retirar o ajé (Energias negativas) e reverenciar os ancestrais, Eguns, Egunguns, Baba Eguns, em especial, as grandes mães ìyàmi òsòrònga e Opaoka e Ajé Shaluga.



Ipadê: despacho para Exu

Muitos candomblecistas consideram o Ipadê como o ato de despachar Exu, isto é, afastá-lo, a fim de não provocar confusões. Tal concepção aproxima-se mais da mitologia iorubana do que propriamente da Teologia e da Espiritualidade do Candomblé.

Em ioruba, pàdé significa reunião. A distinção entre ipadê e padê não é consenso em todas as casas.
  
Xirê (canto e dança aos Orixás):

Por meio do canto e da dança, os Orixás são reverenciados e convidados a participarem da festa. Também conhecido como roda de Candomblé

Em português, xirê pode ser traduzido como festa, brincadeira (1)

Rum:
      
Trajados e paramentados com seus instrumentos, os Orixás dançam e reproduzem seus mitos e lendas. Trata-se da parte final de um xirê.

Provavelmente a denominação dessa parte da festa origina-se do nome do maior dos três tambores no Candomblé Jeje-nagô, o rum.

Sassayin:

Sassayin, Sassaim ou Sassanha é o nome que se dá ao ritual de cantar as folhas sagradas ou rezar as folhas, com cantigas específicas para cada folha, reconhecidas pelo nome da folha (ewe) e seu conteúdo que é o atributo da folha, utilizado principalmente na preparação do abô, na feitura de santo para retirar a energia vital das folhas e extrair o seu sangue (sumo)"sangue de origem vegetal", no sentido de purificar e alimentar os objetos sagrados e o corpo dos iniciados, possibilitando o equilíbrio e a renovação das energias.

Axexê (Asesê):

O axexê é um conjunto de rituais funerários celebrado quando morrem pessoas importante de um terreiro, notadamente os pais e mães-de-santo.

Em iorubá, àjèjè significa uma cerimônia celebrada quando da morte de um caçador.
 
É uma cerimônia realizada após o ritual fúnebre (enterro) de uma pessoa iniciada no candomblé. Tudo começa com a morte do iniciado, chamado de última obrigação.     Este ritual é especial, particular e complexo, pois possibilita a desfazer o que tinha sido feito na feitura de santo, é bem semelhante ao o processo iniciático chamado de sacralização, só que agora este procedimento é uma inversão chamada de dessacralização, no sentido de liberação do Orixá protetor do corpo da pessoa.

Sacrifício:

Sacrifício é a prática de oferecer como alimento a vida de animais às divindades, como ato de propiciação ou culto. O termo é usado também para descrever atos de altruísmo, abnegação e renúncia em favor de outrem.

Esse sacrifício não é só uma oferenda aos Orixás. Todas as partes do animal vão servir de alimento, nada é jogado fora. O couro do animal é usado para encourar os atabaques, o animal inteiro é limpo e cortado em partes, algumas partes são preparadas para os Orisás e o restante é destinado aos demais.

Tudo é aproveitado: até a porção oferecida aos Orisás é posteriormente dis- tribuída entre os filhos da casa, é usada para confraternização: unem-se os filhos a comer com o pai ou mãe, havendo repartição do Asé gerado pelo ori-
sá. 

Paná e kitanda: reaprendizado

Durante os ritos de iniciação, a pessoa é devidamente isolada mantendo contato somente com pessoas preparadas para cuidá-la; toda atenção lhe é dedicada, sendo-lhe destinada uma mãe criadeira também denominada de ojú bòna, para lhe assistir em tempo integral.

Um iyawo equivale a uma criança nova, recém-nascida e merecedora de todos os cuidados, daí o iyawo também ser chamado de omotun, que quer dizer
“criança nova”.

Embora adulta e talvez bem vivida, a pessoa ao entrar para se iniciar transforma-se numa criança, pois é um ser novo que nasce para a religião. Por esse motivo, após o ritual do oruko, ou seja, do nome de iyawo, torna-se necessário um novo ritual: o reaprendizado das coisas, que no Candomblé de Ketu chama-se Paná e nos de Angola, Kitanda.

A palavra paná em yorubá significa “fim do castigo”, em referência à quebra da rigidez exigida durante o começo da iniciação (banhos, pintura, raspagem) e kitanda, em kimbundo, significa “feira, mercado”.

Essa maior liberdade é proporcionada pela presença de entidades chamadas no Ketu de ere. Estas entidades têm características infantis proporcionando ao iyawo um certo relaxamento e repouso.

Estes rituais paná (no Ketu) e kitanda (no Angola) representam em verdade a quebra das kizilas (reação negativa)  em que o iyawo estava submetido durante o tempo de recolhimento,é o reaprendizado dos gestos e ações do dia a dia. Por isso, são colocados objetos como: tesoura, lápis, linha, agulha, vassoura, copos, pratos, etc...

Grá (Djedje):

O Grá é uma divindade ou entidade violenta e agressiva que se manifesta na Vodunsi apenas na sua iniciação, próximo ao “dia do nome”, é acompanhado pelos Ogans, Ekedjis e algumas Vodunsis antigas que farão com que ele realize algumas penitências, fazendo-o cansar, e há um número certo de pessoas que poderão acompanhar este ritual.

Bori:

Bori é o ritual de alimentar a cabeça, o Ori (vimos acima que o Ori é tão importante como qualquer dos Orixás), para a iniciação religiosa, para equilíbrio, tomada de decisões, harmonização com os Orixás etc.

Em iorubá, borí pode ser traduzido como cultuar a cabeça de alguém.

Existem várias maneiras de fazer o ritual oferecimento ao ori (cabeça), pode ser oferecido quando há necessidade, em qualquer pessoa, independente de ter ou não que ser iniciada no orisá; é o ritual que harmoniza o ori, diminui a ansiedade, a dor, a tristeza, trazendo a esperança harmonia e alegria.

É uma das oferendas mais importantes que visa ao bem estar individual no candomblé, é sério, complexo e profundo.

O sacerdote tem que ter grande conhecimento e respeito em relação à questão do ori e da evolução humana.

Seu objetivo é de alimentar o ori, não tem prazo de validade, nem frequência determinada, devendo ser repetido sempre que se mostre necessário. O jogo adivinhatório determinará, através do odu, que material deverá ser usado no bori,e este material poderá ser desde apenas um copo d'água e um obi, até uma oferenda bem grande.


Bori feminino



Bori masculino

Casamentos:
      
Embora, como toda religião constituída, o Candomblé celebre casamentos, é comum também o filho de santo casar-se apenas no civil, ou o casamento religioso ser feito na Igreja Católica Apostólica Romana.

Sacudimentos:

Ritual de limpeza espiritual com o intuito de expulsar energias negativas de pessoa ou ambiente. Para tanto, empregam-se folhas fortes que são batidas na pessoa ou no ambiente (“surra”), pólvora queimada no local em que se realiza o ritual e comidas e aves em contato com a pessoa ou o ambiente, os quais serão posteriormente oferecidos aos eguns.  O ritual é completado com banho, no caso de pessoa, e com a defumação do corpo ou do local do sacudimento.

Obrigações

Cada vez mais se consideram as obrigações não apenas como um compromisso, mas, literalmente como uma maneira de dizer obrigado (a).

Em linhas gerais, as obrigações se constituem em oferendas feitas para, dentre outros, agradecer, fazer pedidos, reconciliar-se, isto é, reequilibrar a própria energia com as energias dos Orixás.

Os elementos oferendados, em sintonia com as energias de cada Orixá, serão utilizados pelos mesmos como combustíveis ou repositores energéticos para ações magísticas (da mesma forma que o álcool, o alimento e o fumo utilizados quando o médium está incorporado).  Daí a importância de cada elemento ser escolhido com amor, qualidade, devoção e pensamento adequado.

Existem obrigações menores e maiores, variando de terreiro para terreiro, periódicas ou solicitadas de acordo com as circunstâncias, conforme o tempo de desenvolvimento mediúnico e a responsabilidade de cada um com seus Orixás, com sua coroa, como no caso da saída (quando o médium deixa o recolhimento e, após período de preparação, apresenta solenemente seu Orixá, ou é, por exemplo, apresentado como sacerdote ou ogã) e outros.

Embora cada casa siga um núcleo comum de obrigações fixadas e de elementos para cada uma delas, dependendo de seu destinatário, há uma variação grande de cores, objetos, características.

Portanto, para se evitar o uso de elementos incompatíveis com os Orixás, há que se dialogar com a Espiritualidade e com os dirigentes espirituais, a fim de que tudo seja corretamente empregado ou, conforme as circunstâncias, algo seja substituído.

RITUAIS DOS INDÍGENAS BRASILEIROS


A Dança do Toré em forma circular: como o universo!


Outro tipo de dança das índias brasileiras


RITUAIS

(por Renato SZTUTMAN: antropólogo. Professor do Departamento de Antropologia da USP, pesquisador do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo/NHII-USP e colaborador do ISA).


INTRODUÇÃO
Ritual com máscara

Os mitos contam como as coisas chegaram a ser o que são. Contam como as divindades, os homens, os animais e as plantas se diferenciaram. Os rituais, por sua vez, fazem o caminho inverso dos mitos.

E, não por acaso, eles se dispõem muitas vezes a contar o mito, a recriar o mito, promovendo uma espécie de retorno a esse tempo de indiferenciação geral em que divindades, homens, animais e plantas se comunicavam entre si, e produziam sua existência por meio dessa interação. 

As populações indígenas acreditam que esta comunicação, esta interação deve se dar de maneira mediada e é indispensável para a produção de pessoas e da própria sociedade.

Afinal, é do cosmos mítico que são extraídas as matérias-primas para a constituição das pessoas e da sociedade. Perder de vista esta comunicação, esta interação é entregar-se à inércia, à permanência num mundo sem sentido.

Os rituais de iniciação, por exemplo, consistem em fazer com que neófitos [iniciantes] sejam separados do convívio social e, assim, se submetam a um estado de liminaridade no qual a fronteira do mundo social, humano, parece borrar-se. É somente passando por esse estado de liminaridade que o neófito poderá voltar a este mundo, agora de maneira transformada.

Os rituais funerários, de sua parte, consistem em separar os vivos do morto, fazendo que o último retorne ao outro mundo, mundo não humano. Toda morte coloca os vivos, nela envolvida, num estado de liminaridade. Por isso não é de se espantar que os rituais funerários ou pós-funerários sejam, entre os povos indígenas, muitas vezes aproveitados para a realização da iniciação de jovens.



Podemos dizer que essa comunicação ritual se estabelece entre seres humanos e seres não humanos, como: espíritos, divindades, donos de espécies naturais, subjetividades que habitam corpos animais e vegetais etc.; todos dotados de diferentes potências.

Mas não podemos esquecer que essa comunicação acaba por se fazer entre pessoas de proveniências distintas: gente de outras aldeias, de outros territórios e mesmo de outras etnias.

Os rituais indígenas são uma celebração das diferenças. Em primeiro lugar, das diferenças entre os seres que habitam o cosmos. Os humanos sabem que muito do que possuem – aquilo que chamamos de cultura – não foi meramente “inventado” por eles mesmos, mas sim tomado, no tempo do mito, de outras espécies, e mesmo de inimigos há muito não vistos.

Os rituais indígenas são, além disso, uma celebração das diferenças entre os próprios seres humanos, diferenças sem as quais não haveria nem troca nem cooperação. E para celebrar essas diferenças uma intensa trama de prestações – de comida e bebida, sobretudo, mas também, em certas ocasiões, de cantos e artefatos – é posta em movimento. [Agosto, 2008]

PANORAMA DA DIVERSIDADE RITUALÍSTICA


O ritual funerário dos Bororo (MT) marca um momento especial de socialização dos jovens. Não só porque muitos deles são formalmente iniciados, mas, também, porque é por meio de sua participação nos cantos, danças, caçadas e pescarias coletivas que eles têm a oportunidade de aprender e perceber a riqueza de sua cultura.


Na corrida de toras, que está relacionada à realização de diferentes rituais, os Krahô (TO) dividem-se em duas equipes, ditas "metades". Cada uma delas carrega uma seção de tronco de buriti (ou outro vegetal), cujo formato, tamanho e ornamentação são variáveis. Os Krahô são um grupo Timbira, da família linguística Jê. Outros povos Timbira e Jê também realizam corridas de toras.


Entre os Canela (MA), grupo Timbira, os meninos são introduzidos na sua classe de idade por meio de alguns rituais de iniciação. Esses rituais treinam os meninos para se tornarem guerreiros. Tradicionalmente, a maioria das meninas está associada de modo a receber cintos de maturidade, necessários para que elas se casem.


No yãkwa, ritual realizado pelos  Enawenê-Nawê (MT), os habitantes da aldeia, divididos em clãs, realizam uma troca generalizada de alimentos, cantos e danças. O ritual, que dura vários meses, possui duas fases distintas, visa a cumprir os ensinamentos dos espíritos subterrâneos, yakairiti.



A primeira iniciação dos meninos Karajás (MT/TO) se dá por volta dos sete ou oito anos de idade. Consiste na perfuração do lábio inferior, que irá receber um adorno. A perfuração é feita com a clavícula de um macaco, e se dá na presença dos pais.
Na maloca Toototobi, dos Yanomami (AM), homens realizam sessão com o pó alucinógeno, yãkuãna. Este é muito presente na iniciação dos pajés Yanomami, e deve sempre se dar sob a condução dos mais velhos.

Homens xinguanos disputam o huka-huka na aldeia dos Yawalapiti (MT). A luta integra o ritual intertribal kwarúp, que se dá em homenagem aos mortos dos diferentes grupos que 
habitam a região do alto Xingu.




Os bobos (bobotegi) são personagens que figuram na Festa do navio, realizada pelos Kadiwéu. Este longo ritual remonta aos tempos da Guerra do Paraguai, quando este povo lutou pelo Brasil.


Apesar de desterrados na cidade de São Paulo, os Pankararu, que migraram do estado de Pernambuco, continuam realizando suas cerimônias, cantos e danças.